Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
BENZEDURAS E MEDICINA POPULAR DO MINHO III
Abcessos – O fel do porco macho, em especial, mas doutros animais ainda, era convincente no tratamento dos abcessos, misturado com um pouco de mel.
 
Para fazer emolientes e pomadas, com as quais se friccionava o abcesso, fazia-se um preparado das enxúndias – gordura das aves – das galinhas, mas também papas de batata com leite, papas de farinha de pau ou um fortíssimo unguento à base de sabão amarelo, gema de ovo, açúcar mascavado e folhas de amieiro[1].
 
 
Agulhas – As agulhas de coser eram temidas, pois uma vez espetadas bem fundo no tecido muscular, entravam na corrente sanguínea em direcção ao coração, com resultados funestos. Aplicava-se sobre o ponto da picada, uma língua de raposo macho[2], a qual também é empregue para expulsar espinhas cravadas no corpo.
 
 
Alopecia – A perda ou ausência de cabelos, resultante de alterações fisiológicas, efeitos das enfermidades, distúrbios endócrinos e factores hereditários, era tratada com cozimento de tormentelo (Thymus Coespititius), um subarbusto indígena do Norte de Portugal, aromático e medicinal.
 
 
Amenorreia – A ausência, diminuição ou supressão do fluxo menstrual, exigia o uso miraculoso do chá da erva das Setes Sangrias ou do chá da Sargacinha dos Montes (Lithospermum diffusum), que habita os pinhais e os matos entre Dezembro e Setembro, conforme esta quadra popular:
À sargacinha do monte
Eu devo-lhe obrigações.
Que encobre meus segredos
Em certas incasiões.
 
Na região do Baixo Minho usavam o chá de nêveda (Clinopodium ascendens), ou, melhor ainda, o pitéu raríssimo de caldos de galinha preta.
 
 
Anemia – Noutras regiões minhotas a terapêutica mandava administrar bolos de pão de milho untados com azeite, receita que não repugnava o sentido.
 
 
Angina – Para combater a amigdalite recomendava-se gargarejos de uma infusão de papoilas ou malvas com mel.
 
 
Anorexia – Usava-se chá de macela ou camomila (Anthemis nobilis) para combater a perda de apetite, erva aromática e medicinal, com vastas propriedades antiespamódicas e digestivas.
 
 
Azia – Coloca-se a pessoa que padece de azia sobre uma pedra, e a benzedeira encarregue de talhar o mal, dizia o seguinte ensalmo:
Talho-te a azia
Cortem o estámego,
Cortem a trela
Está o tolo em cima desta pedra.

Paredes de Coura: Canastro (década de 1990?) 


[1] Alexandre Lima Carneiro e Fernando Pires de Lima, Medicina Popular Minhota, 1931, p. 231.
[2] Alexandre Lima Carneiro e Fernando Pires de Lima, Medicina Popular Minhota, 1931, p. 231.


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Sábado, 30 de Janeiro de 2010
O ANTIGO BRASÃO DE ARMAS DO CONCELHO DE PAREDES DE COURA

Antigo brasão de Paredes de Coura

    O movimento dos concelhos foi, desde sempre vigoroso, embora desigual no tempo e no espaço. Assim, as cidades e demais urbes, para afirmarem a sua independência, ostentam as suas armas desde tempos imemoriais, símbolo da sua autonomia e pujança.

 

    Mas somente no século XX, mais concretamente na década de 1920, procedeu-se à reforma da brasonaria municipal. As actuais armas de domínio do município courense são tardias, e datam de 1940 conforme é do conhecimento público.

 

    Por outro lado, muita gente desconhece o facto essencial de o município de Paredes de Coura ter feito o regular uso dumas armas próprias, cujo texto normativo esteve em vigor antes das actuais.

 

    As antigas armas municipais – chamadas assim para melhor identificação – têm uma interessante história que convém conhecer um pouco. Até essa altura o concelho de Paredes de Coura fez uso das armas nacionais para timbrar os seus ofícios e documentos.

 

    Em 1924, embora tardiamente, comemorou-se o 1.º centenário do falecimento do grande cientista dr. Bernardino António Gomes, falecido em Lisboa após tormentoso padecimento, na madrugada do dia 13 de Janeiro de 1823.

 

    Assim, a 8 de Março de 1924 o dr. Virgílio Machado fez o elogio académico do dr. Bernardino António Gomes durante uma reunião da Secção de História da Medicina da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, que foi o início da justíssima homenagem pública, através duma série de iniciativas empenhadas em fornecer um âmbito nacional às cerimónias de consagração ao ilustre sábio.

 

    Constitui-se uma grande comissão nacional da qual faziam parte os doutores Pedro José da Cunha, Sebastião da Costa Sacadura, Virgílio Machado, Arlindo Monteiro, Luciano Pereira da Silva e Alberto Mac-Bride, e o senhor Moses Amzalak.

 

    Do vasto programa, que não sobra espaço nem tempo para aqui referir, nem que seja de fugida, estava prevista a inauguração dum monumento evocativo, um busto no Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa e diversas placas toponímicas.

 

    O município de Paredes de Coura, terra natal deste grande cientista, foi contactado, no sentido de contribuir com um subsídio financeiro, e a fazer-se representar nos cerimoniais previstos.

 

    O monumento a ser inaugurado nessa ocasião deveria ser coberto com a Bandeira Nacional, a de Lisboa e a de Paredes de Coura, mas aqui residia o cerne da questão: não existia, contudo, nenhum símbolo heráldico concelhio…

 

    A Academia das Ciências do Instituto Histórico do Minho foi convidada a urdir um projecto a fim de colmatar essa gritante lacuna, o qual foi examinado e apreciado em sessão do Senado Municipal de 30 de Abril de 1924.

 

    A ideia concebida por aquele instituto de Viana do Castelo assentava nas históricas reuniões das vereações do antigo Julgado de Fraião que tinham lugar no Paço de Mantelães, edifício que servia de Paços do Concelho, e onde o Juiz Ordinário presidia às audiências públicas, naqueles tempos de antanho.

 

    Nessa reunião, o vereador professor José Joaquim Ferreira Guerreiro, eivado dos melhores conceitos, propôs adicionar à torre central alguns símbolos representativos da vida agrícola, para caracterizar a ideia estabelecida de ser Coura o mais formoso celeiro do Minho, sendo tudo aprovado por unanimidade e aclamação.

 

    Pronto, estava concebido e ordenado o nosso primeiro brasão municipal, ficando lavrado em acta que «a Câmara irá reproduzi-lo logo que as condições financeiras o permitam».

 

    Tempos de apertos económicos, na medida em que a autarquia, através da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Paredes de Coura fez, ainda, o donativo de 100$00 escudos à comissão que festejou o centenário do falecimento do dr. Bernardino António Gomes e determinou que se abrisse uma subscrição pública para ajudar ao pagamento do subsídio camarário e colocar o retrato do homenageado na Sala das Sessões, por deliberação de 16 de Outubro de 1924.

 

    Tenho dois desenhos dessa raridade, mas lamentavelmente nunca vi nenhum com policromia que identificasse as cores e metais do escudo. Assim, omitindo os esmaltes, aqui vai a descrição possível.

 

    Escudo francês, uma torre aberta [e iluminada?] assente numa porção de terreno [talvez de negro], ladeada à dextra por uma planta de milho folhada de várias peças [talvez de verde] sustida por um terrado, e à sinistra por um ancinho, forcado e enxada, postos em feixe; em chefe, a negro e em maiúsculas, os dizeres FRAYÃO DE COURA; em contrachefe, um ondado de água de três peças [talvez de prata e de azul]. Coroa de nobreza adornada de pedras preciosas, rematada com três florões visíveis, separados por duas hastes de ouros visíveis, sustentando cada haste, três pérolas.

 

Antigo brasão de armas de Paredes de Coura

Antigo Brasão de Armas do Concelho de Paredes de Coura [Desenho livre de Jofre de Lima Monteiro Alves, feito a partir dum sobrescrito]

 


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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
PADORNELO NO IX ENCONTRO DE JANEIRAS DE PAREDES DE COURA

 

 

Actuação do Grupo de Cantigas da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Padornelo durante o IX Encontro de Janeiras de Paredes de Coura, realizado no passado dia 9 de Janeiro de 2010. Vídeo de Eduardo Daniel Cerqueira, grande amigo da freguesia, que também pode ser visto aqui.


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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
DICIONÁRIO DE FALARES DO MINHO XV

ACOBERTALHAR, verbo transitivo. Tapar; servir de capa a velhacarias; defender dissimuladamente uma pessoa. Termo de Arcos de Valdevez.

 

ACOBOLADO [acôbolado], adjectivo. Prato usado para a sopa; prato fundo. Termo de Caminha.

 

ACOCHAR [acotchar], verbo transitivo. Agasalhar; aconchegar a roupa; aninhar. «Acocha bem o crioulo que bai munto frio». Na Galiza, também com o mesmo sentido e grafia. Termo de Arcos de Valdevez.

 

AÇODADO, adjectivo. Apressado. «Apressa-te, mas não sejas açodado», Amador Arrais, Diálogos.

 

ACOMPANHAMENTO. Designa a crença tradicional na existência de um enterro nocturno de almas penadas.

 

ACONAPADO, adjectivo. Mal remendado.

 

ACONAPAR, verbo transitivo. Remendar grosseiramente.

 

ACONCHEGO, substantivo masculino. Conchego; conforto. Derivado, por forma regressiva, de aconchegar. «Saía do aconchego da casa paternal desfeita», Camilo Castelo Branco, Boémia de Espírito.

 

ACORDAR, verbo transitivo. Lembrar; recordar. «’Sta tonhinho de todo, não s’acórda de nada».

 

ACOTINHAR-SE, verbo reflexo. Agachar-se; sentar-se em cima das pernas cruzadas.

 

ACOTOAR, verbo. Amadurecer; aperfeiçoar; fermentar o pão. Termo de Viana do Castelo.

 

ACOUDECER, verbo transitivo. Agasalhar.

 

ACRECENTAR, verbo transitivo. Acrescentar. [O grupo sc () reduziu-se por assimilação a c (ç), como nas palavras da língua geral apare­cer, conhecer, oferecer, etc. Os pruridos etimológicos da língua culta restituíram, por vezes, aquele grupo conso­nântico (descer, nascer, crescer, etc.). O falar do Minho diz: acrecentar, cuncença, decer, decida, nacer, na­cida, crecer].

 Capela de Venade, freguesia de Ferreira, concelho de Paredes de Coura



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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
CANCIONEIRO TRADICIONAL DO MINHO 13

Oh Meu São Bentinho

                                               

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Tu deste a saúde

A quem estava mal,

Tu deste a saúde

A quem estava mal.

                                                                  

A quem estava mal

E aos outros também,

Oh meu São Bentinho

Para sempre ámen.

                                                                  

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Tu deste a saúde

A quem estava mal,

Tu deste a saúde

A quem estava mal.

                                                                      

Oh meu São Bentinho

De lado de lá da ponte,

Onde puseste o pé

Nasceu uma fonte.

                                                                              

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Oh meu São Bentinho

De trás do hospital,

Tu deste a saúde

A quem estava mal,

Tu deste a saúde

A quem estava mal.

                                                                         

Oh meu São Bentinho

Velinhas a arder,

Se as velas se apagarem

Voltai-as a acender.

                                                                        

Nota Letra e música popular do Minho.

Este cântico devocional era cantado ao redor da pequena capela do São Bento, por detrás do Hospital de S. Marcos, em Braga, para pedir protecção e saúde, numa antiga romaria que se fazia à quinta-feira.

 Braga: Hospital de São Marcos e convento dos Remédios



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Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
UMAS JANEIRAS CANTADAS NA DÉCADA DE 1950

    O costume dos cantares de Janeiras perde-se na História, com uma origem marcadamente pagã radicada na antiga festa realizada em honra de Jano, o deus das portas celestes, que nunca fazia parcimónia.

 

    Uma divindade antiquíssima representada com uma cabeça de duas faces barbaçudas, uma vara numa mão e uma chave na outra, tudo se abria e fechava à sua passagem, de quem se esperava especial protecção nas partidas e no regresso.

 

    Divindade provida de dois rostos para exercer o poder no céu e na terra. Era dos primeiros a ser evocado no cerimonial religioso na medida em que presidia às portas, entradas e caminhos. Mas, ainda, por ser através dele que as preces humanas, os dares e tomares, chegavam ao excelso concílio dos deuses na mitologia greco-romana.

 

    Visto Jano presidir ao começo de tudo, como deus dos princípios, o primeiro mês do ano foi-lhe consagrado, januarius, daí Janeiro, mês pouco manso e cordato por causa dos foles do Inferno e do Inverno.

 

    Assim, no primeiro dia de Janeiro, na antiguidade romana comemorava-se a “Strenua Calendaria”, ocasião em que o povo romano festejava com particular fervor, saudando-se efusivamente uns aos outros, ao mesmo tempo que saltitava de casa em casa, cantando loas ao som de buzinas, trocando e ofertando dádivas.

 

    Como a Igreja não alcançava erradicar este bárbaro costume idólatra, com tabuleta de paganismo, o Concílio de Tours, realizado no século VI, determinou que nesse dia fosse celebrado a circuncisão de Jesus Cristo. Porém, o que perdurou até hoje foi, essencialmente, a base festiva pagã dos templos romanos que o cristianismo não conseguiu erradicar.

                                                

    Em tempos idos, por toda região do Alto Minho, ao cair da noite do primeiro dia de Janeiro, um grupo de rapazes foliões percorria os caminhos de Cristo, cantado lérias de porta em porta a par de algumas cantigas ao Menino Deus.

                                       

    Mas também e primordialmente para pedirem as boas-festas, hábito deveras enraizado, ensopados sob o chuvisco frio que dobava a escuridão e encharcava por fora os ossos de qualquer cristão.

 

    Vários instrumentos rústicos faziam o incipiente acompanhamento musical, os ferrinhos, a rela, o pandeiro, a sarronca e a sanfona, arrancavam uns uivos sonoros de charamelas, como os tocadores de trombeta e sacabuxas da corte do rei David.

 

    Durante o mês de Dezembro o grupo de rapazio procedia a alguns ensaios, pois a noite em causa seria fria como os flagelos de Deus e era preciso não perder tempo, para que tudo ficasse afinado e expedito, na medida do possível.

 

    Ensaiavam as quadras, geralmente para cantar os méritos dos donos da casa, fazendo distinção individual e mesuras a cada membro, o dono, a dona, os filhos e as filhas. Ora cantavam em coro ou cantorias a solo, por vezes umas baboseiras insignificantes sem pretensa erudição bíblica, numa retórica rude de fazer nódoas roxas no peito. Importante era o gasalho dado pelo dono da casa, em tempo de raspas de cotão e vascas da fome.

 

    Escolhiam para alvo dilecto as casas de lavradores mais abastados e reputada liberalidade, no fito de cativarem os moradores e conseguirem algum donativo. Quase sempre comida para lambarar, por vezes em dinheirame e até, milagrosamente, alguma porção de fumeiro e rodelas de paio, maná repartido pela trupe em partes iguais, prodígio de engrossar o farnel. Iguarias dignas de um rei.

 

    As Janeiras perduravam durante toda a semana e, por vezes, confundiam-se com o Cantar de Reis, para celebrar os Reis Magos, sem necessidade de dourar baixelas e ornar paredes, tupa que tupa, uma légua pequena de brida batida ao redor das melhores casas, em passada de moçoilos decididos.

 

    Hoje, com alguma sentida emoção, recordo aqui umas Janeiras cantadas na longínqua década de 1950 aos meus avós António Inocêncio Alves e Especiosa de Jesus Alves Monteiro, na aldeia das Angústias, em Padornelo, freguesia do concelho de Paredes de Coura.

 

Janeiras cantadas ao dono da casa

 

Boa noite, patrão da casa,

Faz favor de desculpar;

Se o senhor nos der licença,

As Janeiras vamos cantar.

 

Viva lá senhor António

Usa o seu chapéu direito;

Quando vai pela rua fora

Todos lhe guardam respeito.

 

E viva o senhor da casa,

Vá abrir a garrafeira;

E diga à sua esposa

Que incerte a salgadeira.

 

Viva o senhor destas leiras

No seu banquinho de prata;

Venha dar-nos as Janeiras

Que está um frio que mata.

 

Para a dona da casa

 

Viva a senhora de tal

Ó linda rosa encarnada;

Levante-se e venha ao portal

Dai janeira avantajada.

 

Viva lá senhora Especiosa

Muito lhe diz o seu véu;

Quando vai igreja acima

Parece um anjo do céu.

 

Viva a senhora de brilhos

Capa branca de setim;

Ao lado dos seus filhos,

É um ramo de jardim.

 

Viva a senhora de verdade

Santinha de Belém;

Deus lhe dê felicidade

E aos seus filhos também.

 

 

Geral e de agradecimento

 

Viva o chefe de família

E sua esposa também;

E ao lado vossos filhos

Que Jesus os fade bem.

 

Ainda agora chegamos

Já pus o pé na escada;

Logo o coração disse

Aqui mora gente honrada.

 

Levante-se minha senhora

Desse banco de cortiça;

Venha-nos dar as Janeiras

Ou morcela ou chouriça.

 

Nós estamos fora da porta

Como o molhinho de lenha;

À espera da resposta

Que de sua boca venha.

 Capela de São Pedro de Meca, em Insalde



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Sábado, 26 de Dezembro de 2009
MAIS NOTAS SOLTAS SOBRE O NATAL MINHOTO

Formigos ou mexidos de Natal    Enquanto o canhoto ardia na lareira, as mães e as mãezinhas – tratamento carinhoso para as avós – cantarolavam as seguintes quadras, com o mesmo fervor dos salmos do Rei David cantados no coro da Sé:

                                               

Donde vêm os Reis Magos?

Da parte do Oriente

A adorar o Deus menino

Que é Jesus omnipotente.

 

Foram a casa de Herodes

Por ser o melhor reinado,

Para saber o caminho

Onde Jesus era nado.

 

Herodes como malvado

Como profeta malino,

Às avessas ensinou

Aos Santos Reis o caminho.

 

A estrelinha os guiou

Para cima duma cabana,

O menino encontrou

Deitado numa choupana.

 

A cabana era pequena

Não cabiam todos três,

Mesmo assim adoraram

Cada um por sua vez.

 

Todos eles ofereceram

Oiro, mirra e incenso,

Ele nada precisava

Porque era já imenso.

                                                                            

    No entrementes entoavam esta cantiguinha popular de Natal, com o rapazio a fazer coro, ou a atrapalhar, conforme o sono do adiantado da hora e o monco de palmo, colhida inicialmente em Ponte de Lima:

                                                              

Ó que noite de lura

Ó que noite de alegria!

Caminhando vai José

Caminhado vai Maria.

 

Ambos vão para Belém

Mais de noite que de dia,

Quando chegaram a Belém

Já toda a gente dormia.

 

Abri-nos essas portinhas

Porteiros da agonia.

Vinde, vinde senhora

Até ser claro o dia.

 

S. José foi pelo lume

S. José que fazeria?

Já a Virgem tinha parido

Era agora novo dia.

 

Desceu um anjo à terra

Paninhos de oiro trazia,

Tornando a subir ao céu

Cantou uma Ave-Maria.

 

Pai Eterno lhe perguntou

Onde estava Maria,

Maria estava bem

O menino sorria.

                                                                       

    Até os aforismos populares fazem alusão directa, ao garantir-nos que «no dia de Natal, já o dia tem mais um saltinho de pardal», mas asseguram que «de Todos-os-Santos ao Natal é Inverno natural».

                                                   

    A noite de Natal marcava de modo determinante a vida das pessoas, pois acreditava-se nessa ocasião que se o luar fosse intenso o linho medraria imenso e a colheita seria boa. Ao invés, a noite escura prenunciava uma produção aziaga.

                                                                                          

    Também o alho recebe a protecção explícita da quadra festiva, como garante a sabedoria popular que costuma meditar à vontade nestas coisas (Minho, Beira e Trás-os-Montes):

Quem quiser bom alhal

Semeia-o pelo Natal.

                                                                              

    Nas horas que antecediam a Missa do Galo, à volta da lareira onde o Canhoto de Natal tinha a santa função de abrasar toda a noite, brincava-se ao rapa-tira-deixa e põe, um jogo de pinhões, enquanto os crescidos jogavam às cartas ou lembravam os familiares e as narrativas de arrepelar os cabelos.

                                                                  

    Noite cerrada, os sinos convocavam os fiéis para a Missa do Galo, ala que se fazia tarde para beijar a imagem do Menino Deus e uma mó de gente inspirada pelo Altíssimo a entoar:

                          

Alegrem-se os céus e a terra

Cantemos com alegria,

Já nasceu o Deus Menino

Filho da Virgem Maria.

                                                                                                      

    Em geral eram rezadas três missas de Natal, a missa do galo (meia-noite de 24 para 25 de Dezembro), a designada missa da galinha – logo na manhã de 25 de Dezembro – e a missa ordinária na tarde deste último dia. Quem assistisse às três liturgias recebia a graça infinita de amparo celestial e mais indulgências do Céu contra maleitas e maus-olhados.

                                                                            

Rabanadas bêbedas    A Santa Noite de Natal escorria beatitude, a ter dó na humanidade. Era a única do ano em que se podia andar em completo sossego na medonha escuridão, mesmo sem recurso ao santo anjo da guarda, aliviado do pavor das aparições das abantesmas, almas penadas, lobisomens ou coisas-más, conforme crença neste extraordinário prodígio nocturno arreigada em Paredes de Coura e Ponte da Barca.

                                                                                                 

    Na madrugada de 25 de Dezembro, no rescaldo da festança, o Menino Jesus descia pela chaminé para deixar os presentes no sapatinho. A miudagem espertava com as galinhas, mal rompia a alva da manhãzinha, e sem conter o coração aos saltos investia a lareira à cata das modestíssimas prendas em tempos de vacas magríssimas, cotejadas com o despesismo actual, contudo inegavelmente mais preciosas.

                                                                                        

    Naquela altura o Pai Natal não existia no Minho, nem embocava chaminés adentro, nem tínhamos com ele atenção de lei e mesuras. Os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus no dia 25 e nunca na véspera.

                                                                                                         

    Ao almoço – ou jantar como então se dizia naquele torrão de sossego – do dia 25 de Dezembro comia-se a roupa velha, uma delícia feita com o sobejo da lauta consoada. Para amanhar a janta da Ceia de Natal, matava-se um soberbo galo da capoeira, preparado com arroz de pica no chão e chouriço de reco cevado a castanhas, um pitéu que suspirava no estômago.

                                                                               

   O Natal era a festa da família, por excelência, que assistíamos de olhos esbugalhados. Época harmoniosa, sinal de mesa farta idêntica ao milagre de Caná, de molde a reconquistar as almas e o Reino de Sião a Satanás, de deslumbrante placidez supraterrestre, como se chovesse sobre todos o maná da fartura, para retemperar forças do corpo moído de pancada na canseira da labuta diária. Mais do tempo a vida era dor e provação.

 



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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
NOTAS SOLTAS SOBRE O NATAL MINHOTO

 

    Ao longo dos anos fui coligindo alguns apontamentos sobre diversos usos e costumes minhotos, entre os quais avultam umas notas sobre a quadra natalícia, colhidas de levante a poente a ouvir as gentes idosas das nossas aldeias, mas também com recurso a consulta bibliográfica, hoje passadas a pena.
                                                                         
    Em Paredes de Coura, mal entrava a aragem do Natal, os lavradores usavam os doze dias antecedentes para fazerem conjunturas sobre o estado do tempo no ano seguinte. Assim, o dia 13 de Dezembro representaria a meteorologia do mês de Janeiro, o dia 14 afigura Fevereiro, sendo o mês de Dezembro vindouro representado pelo próprio dia 24, o da consoada.
                                                                                     
    Na madrugada do dia 16 de Dezembro começava a Novena de Natal, como processo de purificação e preparação, com missas, ladainhas e cantos litúrgicos, rezando-se nove padre-nossos, nove ave-marias e nove glórias. Esta antiga prática religiosa originou a expressão «semana dos nove dias».
                                                                            
    Por sua vez, José Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa, vol. VIII, 1982, p. 508) faz referência à Rezada do Alho, antiquíssimo costume da freguesia minhota de S. João de Rei, Póvoa de Lanhoso, rezada no adro da igreja, onde se distribuía uma malga de vinho, uma fatia de broa e alhos pelos presentes, por entre padre-nossos e ave-marias.
                                                                                       
    O presépio era, então, um costume muito radicado, ocupando lugar cimeiro no imaginário popular, no entusiasmo da criançada e na casa do lavrador, com montanhas verdejantes, plantas vicejantes, casinhas maviosas, cascatas cristalinas, esplêndidas fontes, gentis mulheres, laboriosos camponeses, diligentes trabalhadores, pastores, grutas acolhedoras, o cândido menino nas palhinhas bafejado pelo burro e a vaca, a Virgem Maria e o venerável S. José, por entre vultos bíblicos e antigos romanos, tais e tais. Tudo num ambiente bucólico e pueril, mistura tanto do divino como do profano, espectáculo de tamanha excelsitude.
                                                                             
    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.
                                                                                                                            
    Para aquecer a noite gélida, um madeiro de carvalho era colocado na lareira. Diziam as santas avós, em sabedoria milenária, que o fumo e as cinzas do Canhoto de Natal tinham a miraculosa função de repelir as faíscas e trovoadas, uma espécie de pára-raios campestre, além de eficazes propriedades medicinais em certas doenças, devendo para tal arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.
                                                                                     
    Noutras terras, como Padornelo (Paredes de Coura), guardava-se religiosamente uma acha do cepo queimado para ser lançado à lareira e queimado de novo em dia de grande trovoada ou temporal medonho, dadas as suas sobrenaturais virtudes contra as tempestades. Até onde chegar o fumo do Canhoto de Natal não tombaria raio nenhum no ano seguinte (Famalicão, Paredes de Coura).
                                                                             
    Em Vila Nova de Famalicão também a borralha da lareira da Consoada era usada para fins curativos na medicina popular. Os cascos das pinhas queimados na noite de Natal para extracção dos pinhões tinham, igualmente, propriedades de protecção contra os trovões, sendo guardados e novamente colocados ao lume em dias de borrasca (Famalicão, Barcelos)
                                                                                                 
    Nalgumas localidades do Baixo Minho mais raiano com Trás-os-Montes (Terra de Bouro, Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto), a rapaziada surripiava um cepo de carvalho ou azinheira para ser queimado no adro da igreja durante a noite de 24 para 25 de Dezembro, sem reprovação pública do proprietário a quem retiravam o tronco, que assim “fornecia” o madeiro para a fogueira. O Canhoto de Natal era transportado inteiro num carro de bois, em ambiente festivo e de grande algazarra, folia rude dos povos.
                                                                                                          
    Em Padornelo, freguesia do concelho de Paredes de Coura, ainda na década de 1960 fazia-se um delicioso arroz de polvo seco para a Ceia da Consoada, que sei ter sido usual e tradicional em Pias, a compor escolta ao obrigatório bacalhau. Aqui, nesta localidade de Monção, a parte da doçaria era composta por bolos de chila e tostas, designação que davam às rabanadas.
                                                                                
    Em Viana do Castelo, para fazer companha ao bacalhau e ao polvo estufado com torradas finas, guarnecia a mesa um terceiro prato de bolinhos de bacalhau com esparregado de nabiças, resguardado por arroz-doce, rabanadas antigas, bolinhos de jerimu ou abóbora-menina, mexidos de mel, terminando ao ceiote – ceia depois da meia-noite – com a sopa dourada de Natal. Tudo um manjar dos deuses.
                                                                                                             
    Embora o arroz-doce fosse elemento essencial da doçaria da Páscoa em muitas casas era, ainda, vulgar formar a modesta bateria de doces que vinha adoçar a mesa de Natal, iguaria de fazer rir os olhos, no resto do ano só havia cibo de broa.
                                                                       
    Os formigos são, por excelência, o doce natalício da região de Ribeira Lima, feitos com pão de trigo duro, que se esfarela para dentro dum pote ao lume, com água e mel, mexendo-se sempre. Quando a massa borbulhar, mostrar boa catadura e ficar mais consistente, juntava-se-lhe uvas passas, nozes e figos aos pedacinhos, fervendo depois mais uns minutos. Deve servir-se frio, sendo feito dois ou três dias antes da consoada e em grande quantidade, não era tempo de ser somítico de unhas rentes.
                                                                            
    Uns dos acepipes mais usados na mesa alto-minhota eram as bêbedas, fatias de pão trigo cortadas com um dedo de espessura, levemente torradas e mergulhadas numa calda de vinho, canela e açúcar ou mel. Noutras localidades, como em Padornelo (Paredes de Coura), ou em Riba de Mouro (Monção), as fatias ficavam a embeber, mergulhadas na dita calda de vinho, açúcar e canela, atoladas em gozo gastronómico.
                                                                               
    Os pinhões eram presença constante em qualquer mesa, festim ao lado do arroz-doce, as rabanadas minhotas – umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas –, as fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar, os figos, as uvas passas, as nozes e toda a casta de vitualhas. As pinhas estão lembradas nesta quadra maviosa de Viana do Castelo:
                                                                                      
Nossa Senhora da Serra
Lá anda no pinheiral,
Apanhando pinha mansa
Para a noite de Natal.
                                                                                                
    Ao fim do serão, à volta do lume comia-se a sopa de vinho quente, adocicada com mel ou açúcar, dentro dum grande malga, entulhada com broa ou pão trigo a fazer a parte sólida. Era a única altura em que se comia sopa, pois o resto do ano somente o caldo vinha à mesa do lavrador.
                                                                                           
    Em São Lourenço da Montaria, freguesia do concelho de Viana do Castelo, a tradicional consoada com bacalhau, nabos e couves emparelhava ainda com a consoladora sopa de vinho quente com açúcar. Tudo de estalo e truz.
                                                                                          
    Por sua vez, em Monção, umas horas depois da ceia, a família comia a sopa de trigo, preparada num grande alguidar, com recurso a vinho verde tinto, açúcar e pão de trigo aos pedaços, de fazer estoirar o cós das calças.
                                                                                    
    Em qualquer localidade do Alto Minho a mesa, com os seus restos alimentares, ficava posta na noite de 24 para 25 de Dezembro. Não podia ser levantada sob pretexto nenhum, para saciar as alminhas e os “anjinhos”, que vinham comer de noite, enquanto a famelga dormia. No Baixo Minho até se punha um talher suplementar para honrar a memória dos familiares já mortos, e, também, não se levantava a mesa da consoada a fim de servir o repasto às almas.
                                                                              
    Em suma, a Consoada de Natal do distrito vianense, pese embora as variáveis, era composta por bacalhau cozido com batatas, ovos, cenouras e couve penca curtida pela geada, seguido de polvo estufado ou arroz de polvo meia-cura, rabanadas minhotas, rabanadas antigas, rabanadas fidalgas, formigos ou mexidos do Natal e pão-de-ló, numa mesa adornada por nozes, figos, passas, pinhões e avelãs, tudo bem regado com um odre do bom vinho. Após a missa do galo, o estômago era acalmado com a sopa de vinho quente, adoçada com mel ou açúcar e reforçada, nas casas mais abastadas, com um calistro de vinho fino (Porto, Madeira ou Moscatel).
 
[Continua a 26 de Dezembro]


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Sábado, 12 de Dezembro de 2009
O ENTERRO DE DOM MANUEL I NUMA ILUMINURA

Contribuição para Identificação das Personagens

Livro de Horas de Dom Manuel, pormenor da tarja inferior das Exéquias                                                      

    O Venturoso Rei Dom Manuel I entregou a alma ao criador, com carta de guia para a imortalidade, no dia 13 de Dezembro de 1521, uma sexta-feira, vai fazer agora 488 anos, após uma curta e fulminante doença no dobar dos dias, sem retomar alentos.

                                                                                   

    Relata uma fonte coeva[1], naquele escrevinhar tão castiço das eras de antanho para os nossos bárbaros ouvidos, que na noite de 12 para 13, el-rei «começou o peito a levantar, e começa a entrar no artiguo da morte e deu a alma a deos», finando-se «antre as dez e as onze horas da noute».

                                                                              

    Executando a sua decisão testamentária, ainda o régio defunto mal esfriara de rigidez cadavérica, às «tres horas depois da meya noite o levaram a nosa senhora de belem metido em hu ataúde em cima de hua azemala».

                                                                               

    Um enorme cortejo flamejante escoltou o real cadáver pelas ruas de Lisboa, guarda de honra impressionante, trupe que trupe, num quebranto mole para levarem o corpo até à cova, fazendo pranto e choro «com grandes lamentações».

                           

    Acudiu toda a gentinha a pé e corcel, «seriam bem dous mil de cavalo», alumiados pelo clarão mortiço de «mais seiscentas tochas com todolos» capelães, clérigos, nobreza, fidalguia do Reino, cabos de ordem da melhor soldadesca que sobrepujam em celebridade e ligeireza e muito povo miúdo, por gosto do maravilhoso e curiosidade.

                                                                                            

    Esta cena, assim descrita, está fielmente retratada numa iluminura do chamado Livro de Horas de D. Manuel, na tarja inferior do fólio 129v das Exéquias. Representa o cortejo fúnebre de rota batida desde o Paço da Ribeira à ermida de Nossa Senhora de Belém, na madrugada de 14 de Dezembro de 1521, para ser ali sepultado provisoriamente em campa rasa.

                                                                     

    Este escrito de hoje abona, tão-somente, uma achega para identificar algumas das personagens presentes no féretro. Pode ser que um dia lhe dedique mais umas linhas a dizer coisas e loisas. Haja paciência que isto não pode ir a mata-cavalos, nem contra o doce remanso de nada querer fazer…

 

    O prelado que encabeça o cortejo não pode ser o arcebispo de Lisboa, D. Martinho Vaz da Costa, falecido 15 dias antes do monarca, a 28 de Novembro de 1521, quebrado de mágoa por este lhe embargar o chapéu cardinalício, a alma a vogar em fel. Nem tão-pouco será o Infante Dom Henrique, futuro cardeal-rei, por ora a rezar matinas como mero prior-comendatário de Santa Cruz de Coimbra.

                                          

    No seu testamento e no codecilo anexo, Dom Manuel encarece por diversas vezes a figura de «meu filho o Cardeal». Trata-se do Infante Dom Afonso (1509+1540), quase de cueiros vai administrar o bispado da Guarda desde 1516, a quem fora imposto o cardinalato aos oitos anos, com o título de cardeal-diácono da Igreja de Santa Luzia in Septen Sollis, corria o Ano do Senhor de 1517.

                     

    O mocinho inexperiente ajunta prebendas por força de muitos ofícios, dedo propício e água benta: abade de Alcobaça (1519), bispo de Viseu (1519), administrador apostólico do arcebispado de Lisboa (1523), administrador perpétuo do bispado de Évora (1523), cardeal-diácono da Igreja de S. Brás (1524), e por fim bispo de Évora e arcebispo de Lisboa. Não consta que invocasse o Divino Espírito Santo com alvoroço e êxtase, mas por via dele não murchou ou dilatou a glória da Igreja.

                                                                             

    Se não for o cardeal Infante Dom Afonso, será D. Jorge de Almeida (1458+1543), de nobre geração por ser filho do 1.º Conde de Abrantes e que foi 37.º bispo de Coimbra (1481), 2.º Conde de Araganil (1483), e Inquisidor-Mor do Reino (1536). É mais verosímil e provável tratar-se do infante, pois a figura que abre o cortejo em cima de uma cavalgadura ajaezada com baeta é imberbe.

                                                         

    Imediatamente atrás do esquife, a personagem mais próxima do observador ostenta no peito a cruz alva da Ordem de Malta. Trata-se de D. João de Menezes, “o Trigo”, fidalgo culto e letrado, rico de teres e haveres, relevo do orgulho pátrio, filho de D. Duarte de Menezes, 3.º Conde de Viana do Alentejo e 2.º Conde de Viana da Foz do Lima. D. João foi capitão de Arzila (1481), governador de Tânger (1486), comendador de Sesimbra, governador da Casa do Príncipe (1489), mordomo-mor da Casa Real (1492), 1.º Conde de Tarouca (1499), Prior do Crato, (1508), conselheiro do Conselho de El-Rei (1509), e alferes-mor do Reino (1521). O «conde priol mordomo moor», como era conhecido pelos seus contemporâneos, faleceu de idade avançada em 1522.

                                                         

    Na imagem, a seu lado direito, vemos o poderoso senhor D. Jaime, altivo sobrinho do finado soberano, sagaz na qualidade suma de reabilitar, manter e dilatar a maior casa aristocrata de Portugal, em toda a parte tinha um paço. Cioso como um marajá, foi 4.º Duque de Bragança (1496), 2.º Duque de Guimarães, 3.º Marquês de Vila Viçosa, 11.º Conde de Barcelos, 5.º Conde de Neiva, 5.º Conde de Arraiolos, Condestável do Reino (1496), príncipe herdeiro da Coroa de Portugal (1498), 8.º Conde de Ourém (1510)[2] e capitão-mor da armada e expedição a Azamor (1513). O duque D. Jaime, filho herdeiro do decapitado duque D. Fernando II (1430+1483), nasceu em 1479 e faleceu em 1532.

                                                              

    A seguir ao brigantino, marcha um cavaleiro arvorado com a cruz vermelha dos espatários. É o Senhor D. Jorge, dilecto filho da libido d’El-Rei Dom João II, nele preluziam de longe os clarões da glória como mestre da Ordem de Santiago (1492), 27.º administrador da Ordem de Avis, Senhor de Montemor-o-Novo e 2.º Duque de Coimbra (1500). O duque D. Jorge, fino no viver, foi ao encontro do Pai do Céu em 1550, aos 69 anos.

                                      

    Ao seu lado direito segue lampeiro D. Fernando de Menezes, primo de el-rei, rebento que entronca na linhagem dos reis godos, foi 1.º Conde de Alcoutim (1496), 2.º Marquês de Vila Real (1499), 4.º Conde de Vila Real, 2.º Conde de Valença (1499), Senhor de Valença, Caminha e de Valadares, 4.º capitão e governador de Ceuta e fronteiro-mor do Algarve. O marquês D. Fernando, filho de D. Pedro de Menezes, 1.º Marquês de Vila Real, e de D. Beatriz de Bragança, nascera em 1463 e faleceu 1524.

                                             

    O quinto elemento desta fila, já muito encoberto, deve ser D. Martinho de Castelo-Branco, conselheiro do Conselho de El-Rei, escudeiro fidalgo da Casa Real, 7.º Senhor do Morgadio da Póvoa, vedor da Fazenda (1514), 1.º Conde de Vila Nova de Portimão (1514), camareiro-mor da Casa do Príncipe (1516), embaixador extraordinário a Sabóia (1521), testamenteiro do falecido soberano, camareiro-mor da Casa Real (1522), regente das Justiças e governador da Casa do Cível. Por sua vez o conde D. Martinho, varão prestadio da Coroa, apesar de suspeito de pouco sangue visigodo, faleceu em 1527.

                                     

    Imediatamente atrás, numa segunda linha, com a cruz de Cristo recortada sobre a loba, identificamos D. Francisco de Portugal, primo d’el-rei, a botar figura como fronteiro de Arzila (1509), 1.º Conde do Vimioso (1515), escudeiro fidalgo da Casa Real, conselheiro do Conselho de El-Rei, vedor da Fazenda (1516), camareiro-mor do príncipe, alcaide-mor de Tomar, Vimioso e Aguiar da Beira, Senhor de Vimioso e de Aguiar da Beira e comendador de Tomar na Ordem de Cristo. O conde D. Francisco, filho legitimado[3] de D. Afonso de Portugal, bispo de Évora – bem prega frei Tomás… –, nascera em 1481 e faleceu em 1549 com desculpável ambição de passar por culto, poeta e sábio.

                                                                                      

    Do seu lado troteia em garbo D. Diogo Lobo da Silveira, cuja propícia estrela da fidalguia o fez Senhor de Alvito, Vila Nova da Baronia, Oriola, Aguiar e Ribeira de Nisa, vedor da Fazenda (1496), 2.º Barão de Alvito (1499), mordomo-mor da Casa Real e conselheiro do Conselho de El-Rei. A negra parca abarbatou o barão D. Diogo antes de Dezembro de 1525.

                                                                   

    O nervo do cortejo fúnebre residia na melhor nobreza do reino de nome e feitos estrondosos, clerezia dispensada de ganhar o paraíso e altos funcionários laureados na intriga palaciana, gente que afagava com o mesmo vigor o tesouro do Estado e a cinta de donzela virgem, desde que o mundo é mundo.

                                                                                               

    O caro leitor termine aqui a desdita da leitura, mas se tiver arcaboiço de truz e paciência de anacoreta, saberá os grã-finos que estiveram, certamente, presentes: D. João de Vasconcelos e Menezes, 2.º Conde de Penela; D. Vasco Coutinho, 1.º Conde de Borba, 1.º Conde de Redondo e capitão de Arzila; D. Francisco Coutinho, 4.º Conde de Marialva, 2.º Conde de Loulé e meirinho-mor do Reino; D. Pedro de Menezes, 2.º Conde de Alcoutim, 5.º capitão de Ceuta e futuro 3.º Marquês de Vila Real; D. João da Silva de Menezes, 2.º Conde de Portalegre; D. Rodrigo de Melo, 1.º Conde de Tentúgal e futuro Marquês de Ferreira; D. Francisco de Lima, 3.º Visconde de Vila Nova de Cerveira; D. Lopo de Almeida, 3.º Conde de Abrantes; D. Manuel Pereira, 3.º Conde da Feira; D. João de Lencastre, 1.º Marquês de Torres Novas e futuro 1.º Duque de Aveiro; D. Vasco da Gama, 1.º Conde da Vidigueira; D. António de Noronha e Menezes, Escrivão da Puridade, capitão e governador de Ceuta e futuro 1.º Conde de Linhares; D. Jorge de Menezes, 6.º Senhor de Cantanhede; Nuno Álvares Pereira, alferes do Reino; Nuno Fernandes de Ataíde, capitão de Safim; Diogo Vaz, Juiz do Cível; Pedro Fernandes, arauto do Rei d’Armas Portugal; António Carneiro, secretário privativo e notário geral do rei; D. Pedro de Castro, vedor da Fazenda; D. Henrique de Noronha, camareiro-mor da Casa Real; D. António de Almeida, contador-mor da Casa Real; D. Nuno, almotacel-mor; Vasco Anes Corte-Real, veador, escudeiro fidalgo e alcaide-mor de Tavira; Francisco da Silveira, coudel-mor; Garcia de Melo, anadel-mor. E outros que já vinham da Índia a abarrontar de especiaria e dobras de oiro, cuja memória martela o bestunto da História.

 



[1] Memória da Doença e Enterro del Rey Dom Manuel, Tirada dos Livros do Marquez de Castello-Rodrigo, in D. António Caetano de Sousa, Provas Genealógicas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo II, I Parte, Lisboa, 1742, p. 383.

[2] De 1489 a 1510 o senhorio da vila, das rendas e posse da fortaleza de Ourém esteve na casa de Vila Real.

[3] Foi legitimado por instrumento paterno de 6 de Fevereiro de 1505 e confirmado por carta de legitimação régia datada de 15 de Fevereiro de 1505.

Livro de Horas de Dom Manuel, Exéquias


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O ENTERRO DE DOM MANUEL I NUMA ILUMINURA II

Árvores de Costados das Personagens Identificadas

                                                                                            

ÁRVORE DE COSTADOS DO INFANTE DOM AFONSO

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

Infante DOM AFONSO

(1509 + 1540)

 

Cardeal

Arcebispo de Lisboa

Bispo de Évora

DOM MANUEL I

(1469 + 1521)

 

Rei de Portugal

DOM FERNANDO (1433 + 1470)

Infante de Portugal

2.º Duque de Viseu

1.º Duque de Beja

D. BEATRIZ (1430+1506)

Infanta de Portugal

DONA MARIA

(1482 + 1517)

Infanta de Espanha

Rainha de Portugal

FERNANDO II (1452 + 1516)

Rei de Aragão

ISABEL I (1451 + 1504)

Rainha de Castela

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. JOÃO DE MENEZES

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. JOÃO DE MENEZES

(1450 + 1522)

 

1.º Conde de Tarouca

D. DUARTE DE MENEZES

(1414 + 1464)

 

3.º Conde de Viana do Alentejo

2.º Conde de Viana da Foz do Lima

D. PEDRO DE MENEZES (1370 + 1437)

1.º Conde de Vila Real

ISABEL DOMINGUES

“a Pixegueira”

D. ISABEL DE CASTRO

(1415 + 1497)

D. FERNANDO DE CASTRO (1370 + 1441)

D. ISABEL DE ATAÍDE

(1390 +)

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. JAIME

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. JAIME

(1479 + 1532)

 

4.º Duque de Bragança

D. FERNANDO II

(1430 + 1483)

          

3.º Duque de Bragança

D. FERNANDO I (1403 + 1478)

2.º Duque de Bragança

D. JOANA DE CASTRO (1410+1479) Senhora do Cadaval

D. ISABEL

(1459 + 1521)

Infanta de Portugal

D. FERNANDO

Infante de Portugal,

2.º Duque de Viseu, 1.º Duque de Beja

D. BEATRIZ, Infanta de Portugal

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. JORGE

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. JORGE

(1481 + 1550)

 

2.º Duque de Coimbra

DOM JOÃO II

(1455 + 1495)

 

Rei de Portugal

DOM AFONSO V (1432 + 1481)

Rei de Portugal

DONA ISABEL (1432 + 1455)

Rainha de Portugal

D. ANA DE MENDONÇA

(1460 +)

NUNO FURTADO DE MENDONÇA

D. LEONOR DO CARVALHAL

 



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O ENTERRO DE DOM MANUEL I NUMA ILUMINURA III

Árvores de Costados das Personagens Identificadas

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. FERNANDO DE MENEZES

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. FERNANDO DE MENEZES

(1463 + 1524)

 

2.º Marquês de Vila Real

D. PEDRO DE MENEZES

(1425 + 1499)

             

1.º Marquês de Vila Real

D. FERNANDO DE NORONHA

(1380 + 1445)

2.º Conde de Vila Real

D. BRITES DE MENEZES

(1400 + 1460)

D. BEATRIZ DE BRAGANÇA

(1440 + 1491)

D. FERNANDO I

2.º Duque de Bragança

D. JOANA DE CASTRO

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. MARTINHO DE CASTELO-BRANCO

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. MARTINHO DE CASTELO BRANCO

(1460 + 1527)

1.º Conde de Vila Nova de Portimão

GONÇALO VAZ DE CASTELO BRANCO

LOPO VAZ CASTELO BRANCO

D. CATARINA PESSANHA

D. BRITES VALENTE

MARTIM AFONSO VALENTE

D. VIOLANTE PEREIRA

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. FRANCISCO DE PORTUGAL

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. FRANCISCO DE PORTUGAL

(1481 + 1549)

 

1.º Conde de Vimioso

D. AFONSO DE PORTUGAL

(1459 + 1522)

 

Bispo de Évora

D. AFONSO (1402 + 1460)

1.º Marquês de Valença

4.º Conde de Ourém

D. BRITES DE SOUSA

D. FILIPA DE MACEDO

(1460 +)

JOÃO GONÇALVES DE MACEDO

D. ISABEL GOMES REBELO

 

ÁRVORE DE COSTADOS DE D. DIOGO LOBO DA SILVEIRA

PRÓPRIO

PAIS

AVÓS

D. DIOGO LOBO DA SILVEIRA

(1470 + 1525)

 

2.º Barão de Alvito

D. JOÃO FERNANDES DA SILVEIRA

(1430 + 1489)

1.º Barão de Alvito

FERNANDO AFONSO DA SILVEIRA

D. CATARINA TEIXEIRA

D. MARIA DE SOUSA LOBO (1435 + 1499)

5.ª Senhora de Alvito

DIOGO LOPES LOBO (1400 +)

D. ISABEL DE SOUSA

(1405 +)

 



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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
TRAJE DE MULHER DO BAIXO MINHO

UM TRAJE DE MULHER DO BAIXO MINHO: O Chapelinho de Feltro

Traje de mulher do Baixo Minho: chapelinho de feltro 

    Esta gravura representa uma mulher do Baixo Minho, com traje tradicional da transição dos finais do século XIX até à segunda década do século XX.

 

    Para além da já tradicional e monumental filigrana de ouro, em especial o cordão típico e as arrecadas de rainha, do colete de grande decote, encoberto pelo lenço de merino que cobre o busto, a peça que se destaca de imediato é um chapelinho de feltro preto retesado.

 

    Formado por uma calote semi-rígida alteada e virola exterior, exibe no rebordo superior da copa uma série de maçanetas ou pompons de aparato, sendo um elegantíssimo e vistoso acessório, com nítidas influências burguesas.

 

    O ornato cimeiro era substituído por flores artificiais ou penas de ave, apresentando por vezes somente um pompom agigantado ou, muito raramente, eram desprovidos de qualquer ornamentação.

 

    Estes chapelinhos ornamentais femininos conheceram uma vasta extensão territorial que abarcava o Baixo Minho, o Douro Litoral, a Beira Litoral e a zona da Nazaré, não fazendo parte, contudo, do traje tradicional alto-minhoto.

 



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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
DICIONÁRIO DE FALARES DO MINHO XIV

ACHARAMENTO, substantivo masculino. Porção de géneros secos que há a mais numa medida rasoirada. Termo de Monção.

                 

ACHARAR, verbo transitivo. Ajustar a medida com a mão; medir os cereais sem o recurso ao rapão.

               

ACHAR-SE AO ENGANO, locução. Achar-se enganado; reconhecer que foi enganado. Usado em Melgaço.

                  

ACHASSÓ, substantivo. Instrumento utilizado pelos cesteiros para acamar as telas do fundo. Termo de Viana do Castelo.

              

ACHEGADEIRA, substantivo feminino. Alcoviteira.

             

ACHEGADO, adjectivo. Chegado; aparentado.

               

ACHEGADOR [atchegadôr], substantivo masculino. Alcoviteiro.

                   

ACHEGAR, verbo transitivo. Levar a vaca ou a égua à procriação.

                     

ACINO, substantivo masculino. Nome que se dá às bagas pequenas, moles, mais ou menos transparentes, como as groselhas, as uvas, com sementes duras no interior; baga.

                    

ACIPRESTE, substantivo masculino. Cipreste.

                       

ACISMOS, substantivo masculino. Exorcismo. Termo de Melgaço.

               

ACIZANAR, verbo transitivo. Acirrar; importunar; atenazar. Formado a partir de atenazar, com influência de acirrar.

 

ACLADINHO, adjectivo. O milheiral quando o seu aspecto é mau.

                 

ACLADO, adjectivo. O milheiral, quando o seu aspecto é prometedor.

 Padornelo: cabra no lugar de Requião em dia de chuva



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 20:41
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Sábado, 21 de Novembro de 2009
A PROPÓSITO DE PALAVRAS: O Topónimo Melgaço

    Hoje vou falar de Melgaço, porém não da profunda beleza divina da vila alto-minhota, olimpo da ninfa Oréade, diva dos bosques e da montanha. Foi uma atalaia medieval sobranceira ao rio Minho, fronteiriça à Galiza, de enorme relevância na História de Portugal durante a Idade Média, nos alvores dos dias alegres.

                                   

    O assunto é a toponímia, aquela coisa medonha, capaz de fazer canear qualquer cocuruto desprevenido pela força da sonolência e ferventar as meninges. Ouvi gente a fungar logo que leu o título, por entre pausas de inquietação das almas caprichosas.

                                        

    O topónimo Melgaço – até foneticamente é bonito! – anda envolto na bruma da incerteza e deu origem a opiniões contraditórias, absurdas e risíveis, com aceitação de alguns, por entre álgidas cintilações celestes. Trago em meu socorro os grandes mestres de olho de lince para a sapiência toponímica, sem arranjar pretexto para criticar desfavoravelmente esta ou aquela alegação.

                                     

    José Pedro Machado[1] desembaraça o escorregadio assunto ao sentenciá-lo como de «origem obscura», aventando, contudo, a suposição de provir do latino mellicaceus, e este derivado de mellicus, não afirmava com certa certeza se para significar mel ou melga.

                                  

    Já José Leite de Vasconcelos[2] dedicou uma escassíssima penada à matéria, em nota de rodapé para aludir a um eventual antropónimo galaico, embora não de forma convincente ou definitiva: «Melgaço parece relacionar-se com o nome de homem Melgaecus, que se lê em inscrições romanas do Minho; o étimo seria Melgaceus igual a Mel-aceus».

                                   

    Vou ali à minha estante e trago mais um calhamaço, agora do douto Armando de Almeida Fernandes[3], nanja, a torcer o nariz ao mel e ao insecto. A sua hipótese assenta num «nome de raiz pré-romana» melg-, com os sufixos equivalentes –az, –azo, –aço, tendo em conta a documentação do século XII, onde o burgo aparece grafado com as formas «villa de Melgazo» (1170, 1173) ou «eclesia de Melgaz» (1185). A tal raiz pré-romana melg-, sobrevinda «talvez de “mel” indo-europeu», designa «rocha ou altura».

                                           

    Por sua vez Joaquim da Silveira[4] avança lampeiro para outra justificação, para ele o «étimo não oferece dúvida», na medida em que Melgaço procede de «melga nome de planta», sendo que «melga é nome comum de uma planta forragínea» conhecida por medicago, alfafa ou luzerna[5]. E, anotamos nós, o vocábulo tem origem no latim vulgar melica.

                                               

    Na recente opinião de Batalha Gouveia[6], em abono da sua tese, o topónimo estaria ligado aos vocábulos celto-bretão mael, «colina», e cath, «guerreiro», de maneira que Melgaço seria, assim a modos, a Colina do Guerreiro.

                                                          

    Longe de cogitar algo conclusivo, o presente artiguelho tem tão-só a finalidade de recensão crítica, apreciar o estado geral do geotopónimo em causa e alinhavar algumas linhas sem fazer uso da luz clara das trevas. Já assentei no meu coração que é batalha difícil. Não creio na raiz indo-europeia meles-, que entrou no grego antigo para exprimir a ideia de «inútil» e daí formamos a palavra «mal».

                                           

    Estaremos na presença de melga – não, não é o insecto outra vez –, voz aferética de amelga, oriunda provavelmente do celta ambelica, e este composto do préverbo indo-europeu ambi-, que traduz «ao redor». Em tempos antiquíssimos o nome amelga designava «uma facha de terreno que o lavrador assinala para salpicar as sementes com igualdade e proporção».

                                                                          

    Na Península Ibérica a geografia mostra, a par da povoação minhota, a existência de outra Melgaço, um mero lugarejo em Alcobaça, uma herdade Melgares no Alentejo, Melgaz (Alvaiázere), e diversas terriolas em Espanha, Melgaza, Melgueiras (Galiza), Melgar (Burgos, Zamora, Palencia, Toledo, León e Valhadolid) e Melgares.

                                                      

    O chamado paroquial suevo, Parochiale Suevorum Divisio Theodemiri[7], refere a existência da civitas Melga, que Almeida Fernandes situa no concelho de Baião[8], por entre guias de pinheiros e coretos de passarinhos.

                                                   

    O sufixo –aço é deveras corrente em denominação toponímica: Cadraço (Tondela), Gramaço (Oliveira do Hospital), Louraço (ilha de S. Jorge), Milhaço (Arouca), Tabuaço (Viseu). Por aqui me fico hoje, o meu raro leitor pode espertar e ir de olhos semicerrados à vidinha ou à janta.

Melgaço, torre de menagem do castelo 



[1] José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, II vol., Editorial Confluência, Lisboa, 1984, p. 974.

[2] José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, III volume, p. 152.

[3] Almeida Fernandes, Toponímia Portuguesa: Exame a Um Dicionário, Arouca, 1999, p.420.

[4] Joaquim da Silveira, Toponímia Portuguesa (Esboços) – V, in Revista Lusitana, vol. XVII, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1914, p. 118.

[5] A luzerna é o nome vulgar da Medicago Sativa, erva leguminosa perene da subfamília das papilionadas, com elevado valor nutritivo para produzir forragem para os animais.

[6] Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Melgaço, in NOTÍCIAS DE COURA, n.º 152, de 17 de Novembro de 2009, p. 19.

[7] Pierre David, Études Historiques sur le Galice et Portugal du VI.e XII.e Siècle, Livraria Portugália, Lisboa, 1947.

[8] A



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 00:30
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Sábado, 14 de Novembro de 2009
O RELÓGIO SOLAR DO HOSPITAL DOS CAPUCHOS: Um Monumento Quinhentista

Relógio de Sol do Hospital dos capuchos    Desde tempos imemoriais que a humanidade sente a mais absoluta necessidade de medir o tempo, quiçá prelúdio da insana luta que a socie­dade contemporânea mantém afim de conduzi-lo, numa vertiginosa e inglória corrida contra-relógio.

                                  

    O desejo elementar de conhecer essa variável chamada tempo, infinita criação, está profusamente documentada nas mais Antigas Civilizações, sendo de facto o reló­gio de sol o primeiro sistema utilizável. Como antepassado remoto, antecedeu ou originou todos os modelos que permitiram a sua real aferição, como a clepsidra, os relógios de areia, mecânicos, elec­trónicos, atómicos, etc.

                           

    O relógio de sol, ou a pedra horária, é um dispositivo que sofre uma natural limitação por somente permitir a sua utilização diurna. Sendo deveras vulgar nas construções do Egipto Antigo há mais de 4.000 anos, donde passou aos Babilónios e aos Gregos, que o aperfeiçoaram, e daí ao Império Romano, os seus maiores divulgadores e introduto­res na Península Ibérica.

                             

    Obviamente, podem os relógios de sol assumir múltiplos e variados formatos; cilíndricos, octo­gonais, quadrados, anelares, esféricos, barras curvas ou dentados.

                     

    Como elemento decorativo e ar­quitectónico vamos encontrá-lo instalado no cimo de ornamentais colunas, sobre as cornijas das ca­sas solarengas ou de pousio nas torres sineiras das igrejas e capelas, perante o olhar pasmada da passarada nas corutas dos pinheiros.

                               

    São os casos dos relógios solares de Castro Laboreiro (século XVII), ou o da capela de Fradinhos, em Rubiães, freguesia do concelho de Paredes de Coura (século XVIII).

                        

    Alguns trazem acoplados significativas divi­sas, onde se lêem filosóficas frases: «Só indico as horas quando há Sol», ou «o tempo decorrido me enganou; o presente me atormenta; o futuro me es­panta».

                                      

    Contudo, no território nacional, como afirmava em 1805 o padre Francisco Faria de Aragão na sua «Horografia Portuguesa», «são bem poucos os reló­gios de sol que até agora tenho achado...», umas vezes por inexistência de facto, muitas outras por incúria e sanha destrutiva, enquanto o diabo dá um espirro.

                           

    Estavam os frades franciscanos Recoletos da Custódia de Santo António já instalados desde 1579 no seu recém construído Convento de Santo António dos Capuchos, em Lisboa, quando receberam da Câmara Municipal de Lisboa, no reinado de D. Filipe I, uma esmola anual de 64$800 réis a título de padroado.

                      

    Parte dessa maquia foi empregue na edi­fica­ção de um quadrante solar por frei Martinho da Ínsula[1], sóbrio de conhecimento a dirigir a construção e seu primeiro Guardião.

 

    Os frades, nessa época, caprichavam em eleger os melhores para as prelazias subalternas, os galopins e a fama de boa mesa vieram depois.

                     

    É, indesmentivel­mente, o mais antigo de todos os relógios solares existentes em Portugal, porquanto data de 1586, e não se conhece nenhum de época precedente. Parece ter sido feito por um construtor que nele grafou as iniciais F. P. L., por entre odores de incenso e sebo. 

                                  

    Magnífico trabalho em pedra, relativamente bem conservado, apresenta três quadrantes, o hori­zontal, o vertical sem declinação e o equino­cial.

                                     

    A parte horizontal é permanentemente ilumi­nada desde o nascer ao sol-pôr; o quadrante vertical meridional recebe os raios solares du­rante um período máximo de 12 horas, a claridade a tremeluzir de 21 de Março a 23 de Setembro; o lado equinocial setentrional é unicamente alumiado durante o es­paço de tempo que abria com a alba de 21 de Março a 23 de Setembro, pois no restante período o astro-rei encontra-se no hemisfério Sul.

                           

    Originalmente encontrava-se num espaço aberto junta da cerca do cenóbio, e por lá ficou séculos a esbarrondar as arestas do tempo rompante. Foi mandado colocar no actual local, o chamado «Pátio do Relógio», pelo provedor Alfredo de Queiroz Guedes[2], na década de noventa da centúria de oitocentos por mor dum incidente.

                           

    Sucedeu que um albergado no Asilo de Mendicidade de Dona Maria II[3], quebrantado da vida, utilizou o poço a fim de cometer sui­cídio, a cogitar maneira de se aliviar da miséria, mesmo à custa da alma.

                                              

    Em virtude desse funesto episódio acudiu aquele dirigente, pouco atreito ao pânico, a mandar atulhar o bucal da cisterna e nele sobrepor o re­lógio solar em pedra. Pôs uma pedra sobre o assunto, medida judiciosa, sem rufos de tambor.

                                           

    A enfeitar a base da cisterna, remiramos, em cintura envolvente, um ostentoso conjunto de azulejos azuis e brancos da segunda metade do sé­culo XVIII. Um medalhão oval ao bom gosto setecen­tista, contendo no centro um lírio estilizado, ladeado por dois incansáveis anjinhos papudos, é sucessivamente repetido, em har­moniosa escala e lanços simétricos e meneios de mil graças.

                                  

    Uma lindíssima ornamentação dos tempos áureos do estilo rocaille, com volutas, concheados, anjinhos e as chamadas «asas de morcego» fazem o elegante conjunto. Uma aragem de Primavera e regalo à vista.

                                        

    Por fim, e graças aos zelosos esforços de um movimento que envolveu alguns dos trabalhadores do Hospital de Santo António dos Capuchos, a 3 de Janeiro de 1986 (Diário da República, I.ª Série, n.º 2), foi o relógio de sol declarado monumento de interesse nacional pelo Ministério da Cultura. 

Relógio de Sol do Hospital dos Capuchos 



[1] Frei Martinho da Ínsula nasceu na vila minhota de Caminha em 1518 e faleceu em Lisboa em 1598, foi frade franciscano da Ordem dos Padres Recoletos da Custódia de Santo António e aio do Infante D. Luís. Dirigiu a construção do convento de Santo António dos Capuchos, edificado no Campo do Curral das Freiras de Sant’Ana entre 1570 e 1579, tendo lançado a primeira pedra a 15 de Fevereiro de 1570, sendo depois seu primeiro guardião.

[2] Alfredo de Queirós Guedes nascido em 1844 com prosápia de fidalguia herdada, terceiro filho varão de António Joaquim Guedes e D. Maria Leopoldina Pereira de Queirós, foi provedor do Asilo de Mendicidade de Dona Maria II (1881), comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1884), grã-cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1887), e sócio do Real Clube Tauromáquico. Era irmão do 2.º Visconde de Valmor, Fausto de Queirós Guedes (1837+1898), do 1.º Conde de Almedina, Delfim Deodato Guedes (1842+1895), e da 1.ª Viscondessa de Guedes Teixeira, D. Leopoldina de Queirós Guedes Teixeira.

[3] O Asilo de Mendicidade de Dona Maria II, instituição de caridade social para assistência a velhos e inválidos, foi fundado por decreto de 14 de Abril de 1836 e funcionou nas instalações do extinto convento de Santo António dos Capuchos, ao Campo de Sant’Ana, em Lisboa, até ao encerramento definitivo do estabelecimento asilar nos primórdios de 1928, com a transferência massiva dos internados para o Mosteiro de Alcobaça e para o asilo de Campolide. No mesmo local foi criado o Hospital de Santo António dos Capuchos por decreto de 3 de Março de 1928, unidade hospitalar integrada no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa.

 


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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:38
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
PROVÉRBIOS POPULARES 29 - São Martinho

·        A cada bacorinho vem seu S. Martinho.

·        A castanha tem uma manha, vai com quem a apanha.

·        As castanhas apanham-se quando caem.

·        As geadas de S. Martinho levam a carne e o vinho.

·        Dia de S. Martinho vai adega e prova o vinho.