Sábado, 21 de Novembro de 2009
A PROPÓSITO DE PALAVRAS: O Topónimo Melgaço

    Hoje vou falar de Melgaço, porém não da profunda beleza divina da vila alto-minhota, olimpo da ninfa Oréade, diva dos bosques e da montanha. Foi uma atalaia medieval sobranceira ao rio Minho, fronteiriça à Galiza, de enorme relevância na História de Portugal durante a Idade Média, nos alvores dos dias alegres.

                                   

    O assunto é a toponímia, aquela coisa medonha, capaz de fazer canear qualquer cocuruto desprevenido pela força da sonolência e ferventar as meninges. Ouvi gente a fungar logo que leu o título, por entre pausas de inquietação das almas caprichosas.

                                        

    O topónimo Melgaço – até foneticamente é bonito! – anda envolto na bruma da incerteza e deu origem a opiniões contraditórias, absurdas e risíveis, com aceitação de alguns, por entre álgidas cintilações celestes. Trago em meu socorro os grandes mestres de olho de lince para a sapiência toponímica, sem arranjar pretexto para criticar desfavoravelmente esta ou aquela alegação.

                                     

    José Pedro Machado[1] desembaraça o escorregadio assunto ao sentenciá-lo como de «origem obscura», aventando, contudo, a suposição de provir do latino mellicaceus, e este derivado de mellicus, não afirmava com certa certeza se para significar mel ou melga.

                                  

    Já José Leite de Vasconcelos[2] dedicou uma escassíssima penada à matéria, em nota de rodapé para aludir a um eventual antropónimo galaico, embora não de forma convincente ou definitiva: «Melgaço parece relacionar-se com o nome de homem Melgaecus, que se lê em inscrições romanas do Minho; o étimo seria Melgaceus igual a Mel-aceus».

                                   

    Vou ali à minha estante e trago mais um calhamaço, agora do douto Armando de Almeida Fernandes[3], nanja, a torcer o nariz ao mel e ao insecto. A sua hipótese assenta num «nome de raiz pré-romana» melg-, com os sufixos equivalentes –az, –azo, –aço, tendo em conta a documentação do século XII, onde o burgo aparece grafado com as formas «villa de Melgazo» (1170, 1173) ou «eclesia de Melgaz» (1185). A tal raiz pré-romana melg-, sobrevinda «talvez de “mel” indo-europeu», designa «rocha ou altura».

                                           

    Por sua vez Joaquim da Silveira[4] avança lampeiro para outra justificação, para ele o «étimo não oferece dúvida», na medida em Melgaço procede de «melga nome de planta», sendo que «melga é nome comum de uma planta forragínea» conhecida por medicago, alfafa ou luzerna[5]. E, anotamos nós, o vocábulo tem origem no latim vulgar melica.

                                               

    Na recente opinião de Batalha Gouveia[6], em abono da sua tese, o topónimo estaria ligado aos vocábulos celto-bretão mael, «colina», e cath, «guerreiro», de maneira que Melgaço seria, assim a modos, a Colina do Guerreiro.

                                                          

    Longe de cogitar algo conclusivo, o presente artiguelho tem tão-só a finalidade de recensão crítica, apreciar o estado geral do geotopónimo em causa e alinhavar algumas linhas sem fazer uso da luz clara das trevas. Já assentei no meu coração que é batalha difícil. Não creio na raiz indo-europeia meles-, que entrou no grego antigo para exprimir a ideia de «inútil» e daí formamos a palavra «mal».

                                           

    Estaremos na presença de melga – não, não é o insecto outra vez –, voz aferética de amelga, oriunda provavelmente do celta ambelica, e este composto do préverbo indo-europeu ambi-, que traduz «ao redor». Em tempos antiquíssimos o nome amelga designava «uma facha de terreno que o lavrador assinala para salpicar as sementes com igualdade e proporção».

                                                                          

    Na Península Ibérica a geografia mostra, a par da povoação minhota, a existência de outra Melgaço, um mero lugarejo em Alcobaça, uma herdade Melgares no Alentejo, Melgaz (Alvaiázere), e diversas terriolas em Espanha, Melgaza, Melgueiras (Galiza), Melgar (Burgos, Zamora, Palencia, Toledo, León e Valhadolid) e Melgares.

                                                      

    O chamado paroquial suevo, Parochiale Suevorum Divisio Theodemiri[7], refere a existência da civitas Melga, que Almeida Fernandes situa no concelho de Baião[8], por entre guias de pinheiros e coretos de passarinhos.

                                                   

    O sufixo –aço é deveras corrente em denominação toponímica: Cadraço (Tondela), Gramaço (Oliveira do Hospital), Louraço (ilha de S. Jorge), Milhaço (Arouca), Tabuaço (Viseu). Por aqui me fico hoje, o meu raro leitor pode espertar e ir de olhos semicerrados à vidinha ou à janta.

Melgaço, torre de menagem do castelo 



[1] José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, II vol., Editorial Confluência, Lisboa, 1984, p. 974.

[2] José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, III volume, p. 152.

[3] Almeida Fernandes, Toponímia Portuguesa: Exame a Um Dicionário, Arouca, 1999, p.420.

[4] Joaquim da Silveira, Toponímia Portuguesa (Esboços) – V, in Revista Lusitana, vol. XVII, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1914, p. 118.

[5] A luzerna é o nome vulgar da Medicago Sativa, erva leguminosa perene da subfamília das papilionadas, com elevado valor nutritivo para produzir forragem para os animais.

[6] Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Melgaço, in NOTÍCIAS DE COURA, n.º 152, de 17 de Novembro de 2009, p. 19.

[7] Pierre David, Études Historiques sur le Galice et Portugal du VI.e XII.e Siècle, Livraria Portugália, Lisboa, 1947.

[8]



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 00:30
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Sábado, 14 de Novembro de 2009
O RELÓGIO SOLAR DO HOSPITAL DOS CAPUCHOS: Um Monumento Quinhentista

Relógio de Sol do Hospital dos capuchos    Desde tempos imemoriais que a humanidade sente a mais absoluta necessidade de medir o tempo, quiçá prelúdio da insana luta que a socie­dade contemporânea mantém afim de conduzi-lo, numa vertiginosa e inglória corrida contra-relógio.

                                  

    O desejo elementar de conhecer essa variável chamada tempo, infinita criação, está profusamente documentada nas mais Antigas Civilizações, sendo de facto o reló­gio de sol o primeiro sistema utilizável. Como antepassado remoto, antecedeu ou originou todos os modelos que permitiram a sua real aferição, como a clepsidra, os relógios de areia, mecânicos, elec­trónicos, atómicos, etc.

                           

    O relógio de sol, ou a pedra horária, é um dispositivo que sofre uma natural limitação por somente permitir a sua utilização diurna. Sendo deveras vulgar nas construções do Egipto Antigo há mais de 4.000 anos, donde passou aos Babilónios e aos Gregos, que o aperfeiçoaram, e daí ao Império Romano, os seus maiores divulgadores e introduto­res na Península Ibérica.

                             

    Obviamente, podem os relógios de sol assumir múltiplos e variados formatos; cilíndricos, octo­gonais, quadrados, anelares, esféricos, barras curvas ou dentados.

                     

    Como elemento decorativo e ar­quitectónico vamos encontrá-lo instalado no cimo de ornamentais colunas, sobre as cornijas das ca­sas solarengas ou de pousio nas torres sineiras das igrejas e capelas, perante o olhar pasmada da passarada nas corutas dos pinheiros.

                               

    São os casos dos relógios solares de Castro Laboreiro (século XVII), ou o da capela de Fradinhos, em Rubiães, freguesia do concelho de Paredes de Coura (século XVIII).

                        

    Alguns trazem acoplados significativas divi­sas, onde se lêem filosóficas frases: «Só indico as horas quando há Sol», ou «o tempo decorrido me enganou; o presente me atormenta; o futuro me es­panta».

                                      

    Contudo, no território nacional, como afirmava em 1805 o padre Francisco Faria de Aragão na sua «Horografia Portuguesa», «são bem poucos os reló­gios de sol que até agora tenho achado...», umas vezes por inexistência de facto, muitas outras por incúria e sanha destrutiva, enquanto o diabo dá um espirro.

                           

    Estavam os frades franciscanos Recoletos da Custódia de Santo António já instalados desde 1579 no seu recém construído Convento de Santo António dos Capuchos, em Lisboa, quando receberam da Câmara Municipal de Lisboa, no reinado de D. Filipe I, uma esmola anual de 64$800 réis a título de padroado.

                      

    Parte dessa maquia foi empregue na edi­fica­ção de um quadrante solar por frei Martinho da Ínsula[1], sóbrio de conhecimento a dirigir a construção e seu primeiro Guardião.

 

    Os frades, nessa época, caprichavam em eleger os melhores para as prelazias subalternas, os galopins e a fama de boa mesa vieram depois.

                     

    É, indesmentivel­mente, o mais antigo de todos os relógios solares existentes em Portugal, porquanto data de 1586, e não se conhece nenhum de época precedente. Parece ter sido feito por um construtor que nele grafou as iniciais F. P. L., por entre odores de incenso e sebo. 

                                  

    Magnífico trabalho em pedra, relativamente bem conservado, apresenta três quadrantes, o hori­zontal, o vertical sem declinação e o equino­cial.

                                     

    A parte horizontal é permanentemente ilumi­nada desde o nascer ao sol-pôr; o quadrante vertical meridional recebe os raios solares du­rante um período máximo de 12 horas, a claridade a tremeluzir de 21 de Março a 23 de Setembro; o lado equinocial setentrional é unicamente alumiado durante o es­paço de tempo que abria com a alba de 21 de Março a 23 de Setembro, pois no restante período o astro-rei encontra-se no hemisfério Sul.

                           

    Originalmente encontrava-se num espaço aberto junta da cerca do cenóbio, e por lá ficou séculos a esbarrondar as arestas do tempo rompante. Foi mandado colocar no actual local, o chamado «Pátio do Relógio», pelo provedor Alfredo de Queiroz Guedes[2], na década de noventa da centúria de oitocentos por mor dum incidente.

                           

    Sucedeu que um albergado no Asilo de Mendicidade de Dona Maria II[3], quebrantado da vida, utilizou o poço a fim de cometer sui­cídio, a cogitar maneira de se aliviar da miséria, mesmo à custa da alma.

                                              

    Em virtude desse funesto episódio acudiu aquele dirigente, pouco atreito ao pânico, a mandar atulhar o bucal da cisterna e nele sobrepor o re­lógio solar em pedra. Pôs uma pedra sobre o assunto, medida judiciosa, sem rufos de tambor.

                                           

    A enfeitar a base da cisterna, remiramos, em cintura envolvente, um ostentoso conjunto de azulejos azuis e brancos da segunda metade do sé­culo XVIII. Um medalhão oval ao bom gosto setecen­tista, contendo no centro um lírio estilizado, ladeado por dois incansáveis anjinhos papudos, é sucessivamente repetido, em har­moniosa escala e lanços simétricos e meneios de mil graças.

                                  

    Uma lindíssima ornamentação dos tempos áureos do estilo rocaille, com volutas, concheados, anjinhos e as chamadas «asas de morcego» fazem o elegante conjunto. Uma aragem de Primavera e regalo à vista.

                                        

    Por fim, e graças aos zelosos esforços de um movimento que envolveu alguns dos trabalhadores do Hospital de Santo António dos Capuchos, a 3 de Janeiro de 1986 (Diário da República, I.ª Série, n.º 2), foi o relógio de sol declarado monumento de interesse nacional pelo Ministério da Cultura. 

Relógio de Sol do Hospital dos Capuchos 



[1] Frei Martinho da Ínsula nasceu na vila minhota de Caminha em 1518 e faleceu em Lisboa em 1598, foi frade franciscano da Ordem dos Padres Recoletos da Custódia de Santo António e aio do Infante D. Luís. Dirigiu a construção do convento de Santo António dos Capuchos, edificado no Campo do Curral das Freiras de Sant’Ana entre 1570 e 1579, tendo lançado a primeira pedra a 15 de Fevereiro de 1570, sendo depois seu primeiro guardião.

[2] Alfredo de Queirós Guedes nascido em 1844 com prosápia de fidalguia herdada, terceiro filho varão de António Joaquim Guedes e D. Maria Leopoldina Pereira de Queirós, foi provedor do Asilo de Mendicidade de Dona Maria II (1881), comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1884), grã-cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1887), e sócio do Real Clube Tauromáquico. Era irmão do 2.º Visconde de Valmor, Fausto de Queirós Guedes (1837+1898), do 1.º Conde de Almedina, Delfim Deodato Guedes (1842+1895), e da 1.ª Viscondessa de Guedes Teixeira, D. Leopoldina de Queirós Guedes Teixeira.

[3] O Asilo de Mendicidade de Dona Maria II, instituição de caridade social para assistência a velhos e inválidos, foi fundado por decreto de 14 de Abril de 1836 e funcionou nas instalações do extinto convento de Santo António dos Capuchos, ao Campo de Sant’Ana, em Lisboa, até ao encerramento definitivo do estabelecimento asilar nos primórdios de 1928, com a transferência massiva dos internados para o Mosteiro de Alcobaça e para o asilo de Campolide. No mesmo local foi criado o Hospital de Santo António dos Capuchos por decreto de 3 de Março de 1928, unidade hospitalar integrada no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa.

 


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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:38
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
PROVÉRBIOS POPULARES 29 - São Martinho

·        A cada bacorinho vem seu S. Martinho.

·        A castanha tem uma manha, vai com quem a apanha.

·        As castanhas apanham-se quando caem.

·        As geadas de S. Martinho levam a carne e o vinho.

·        Dia de S. Martinho vai adega e prova o vinho.

·        Dia de S. Martinho, rabusca o teu soitinho, faz o teu magustinho e encerta teu pipinho.

·        Do vinho e da mulher livre-se o homem se puder.

·        Dos Santos a S. Martinho são nove dias de pão e vinho.

·        Em dia de S. Martinho mata o teu porquinho e espicha teu pipinho.

·        Em dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.

·        Em dia de S. Simão, quem não faz magusto não é cristão.

·        Em Novembro se queres pasmar teu vizinho, lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.

·        Em Novembro, S. Martinho vai à adega e prova o vinho.

·        Em Novembro, S. Martinho, lume, castanhas e vinho.

·        Em S. Martinho tapa o teu portalzinho, ceba o teu porquinho e fura o pipinho.

·        No dia de S. Martinho assa castanhas e molha-as em vinho.

·        No dia de S. Martinho encerra o porquinho, souta o soutinho e prova o teu vinho.

·        No dia de S. Martinho fura o teu pipinho.

·        No dia de S. Martinho fura-se o pipinho, mas quem for honrado já o deve ter furado.

·        No dia de S. Martinho mata o teu porco, abre o pipinho, chega-te ao lume, assa castanhas e bebe o teu vinho.

·        No dia de S. Martinho mata teu porco e bebe o teu vinho.

·        No dia de S. Martinho vai à adega e prova o teu vinho.

·        Novembro pelo S. Martinho, comem-se as castanhas e prova-se o vinho.

·        Novembro pelo S. Martinho, mata teu porco e bebe teu vinho.

·        Novembro pelo S. Martinho, nem nado, nem cabecinho.

·        Novembro pelo S. Martinho, prova o teu vinho; ao cabo de um ano já te não faz dano.

·        Novembro pelo S. Martinho, semeia fava e linho.

·        Novembro pelo S. Martinho, semeia o teu cebolinho.

·        O Verão de S. Martinho, são três dias e um pouquechinho.

·        Pelo S. Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.

·        Pelo S. Martinho prova teu vinho, ao cabo do ano já te não faz dano.

·        Pelo S. Martinho todo o mosto é bom vinho.

·        Por S. Martinho semeia fava e linho.

·        S. Martinho bebe o vinho e deixa a água para o moinho.

·        Se queres pasmar teu vizinho, lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.

 



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:11
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
MAGUSTOS E FESTEJOS ASSOCIADOS À CASTANHA

    A castanha foi alimento primordial na cadeia alimentar humana em tempos idos, quando a miséria era tanta como os piolhos, sendo gradualmente substituída e marginalizada pela introdução de outros produtos, em especial a batata e o milho. Foi mantimento básico, insubstituível, até ao século XVI, importância que se prolongou nalgumas regiões até ao século XVIII.

                                                                                         

    Dela se fazia o sustento essencial, o caldo substancial, o puré de atulho, a escolta aos demais alimentos e inúmeros pratos, tudo aos punhados. Na mesa do pobre nunca faltava pãozinho de castanhas.

                                  

À falta de pão

Até migalhas vão.

                                                

    Até ao século XVII consumia-se mais castanhas do que pão de trigo e de milho ou batatas, tanto na alimentação humana, como excelente alimento para certos animais, em especial o porco, o carneiro e a vaca leiteira.

                                                          

    Os soutos abrangiam compactas regiões do Norte, em especial nos terrenos graníticos e xistosos de Trás-os-Montes e das Beiras. Na década de 1930 a maior mancha de castanheiros preponderava em Bragança (22.400 hectares), Guarda (15.200), Castelo Branco (12.700), Viseu (10.700) e Vila Real (10.600).

                                                  

    A colheita da castanha decorre de Setembro a Novembro, sendo a apanha feita por homens que varejam as árvores e rapazes que apanham os ouriços, por vezes ajudados pelas mulheres, a esgadanhar na batalha pela vidinha, o estômago precisa tanta pitança como o espírito.

                                               

Se o castanheiro falara

Ele dissera o que viu;

Debaixo da sua sombra

Dois amantes encobriu.

                                                                   

    Hoje a castanha encerra, tão-somente, um carácter simbólico e folclórico residual associado às festas do Outono e nas celebrações dos Santos, Fiéis Defuntos e S. Martinho. Já não é festim à tripa-forra em mesa de cristãos e mouros, nem umbigo do mundo.

                                                    

    O vocábulo magusto tem uma origem controversa, sem certa certeza. Mas virá do latim magnus ustus, «grande fogueira, queimado», e tem correspondência no galego e no asturiano magosto. Magusto, que hoje designa tão-só as castanhas assadas, definia antigamente a própria fogueira onde alabaravam as ditas, o que está conforme com a etimologia.

                                                  

    As tradições que ocorriam por esta altura eram variáveis, embora com algumas pontes comuns, verdadeiras refeições cerimoniais. Outrora, ainda no início do século XIX, em algumas regiões do Norte, os festejos associados à castanha principiavam no dia de S. Simão e S. Judas Tadeu, comemorado a 28 de Outubro, ponto de partida para as merendas prazenteiras de castanhas assadas que se prolongavam até ao S. Martinho.

                                                         

Em dia de S. Simão,

Quem não faz magusto

Não é cristão.

                                                          

    O dia de Todos-os-Santos, igualmente dedicado ao antiquíssimo costume de pedir Pão por Deus, o qual remonta à Idade Média, está, também, relacionado ao magusto, comido à lambardana, a boca a manducar de prazer, masca que masca.

                                                                                                           

A castanha tem uma manha,

Vai com quem a apanha.

                           

    Assim, em muitas localidades de Trás-os-Montes era festejado nesta ocasião o “Magusto dos Santos”, com romarias do poviléu, trupe que trupe virado ao campo, a pilhar castanhas, assando-as de seguida em fogueiras de carqueja, chamiça e sargaço, improvisadas no remanso da pulsação ao ar livre. Tudo bem regado com vinho palhete ou água-pé de canjirão, até tombarem para o lado, no poisar mansinho do torpor da fadiga báquica antes do sol-pôr.

                                                         

Dos Santos a S. Martinho

São onze dias de pão e vinho.

                                                                        

    O magusto de 1 de Novembro era uma quase obrigação social e festiva, um arraial pegado para as populações do Norte de Portugal, a cabriolar como faunos e ninfas, numa alegria indizível que antecedia a solenidade profunda das cerimónias religiosas do Dia dos Finados, a carregar tristeza e borbulhão de lágrimas. O povinho é assim, da alacridade efusiva à mágoa sentida enquanto arde um fósforo.

                                               

Não sei se cante, se chore,

Se qual melhor me será;

O cantar alivia penas,

O chorar as dobrará.

                                         

    Em conformidade com as melhores conjecturas etnológicas aceites, o Magusto dos Santos é a reminiscência de antiquíssimos rituais fúnebres pagãos, do tempo dos deuses farsantes, durante os quais se faziam oferendas em géneros alimentares às almas dos mortos, segundo essa crença arreigada voltavam aos lugares das suas vidas anteriores, não sei se brancos como a cera.

                                

Alma enamorada

De pouco é assombrada.

                                           

    Nessa altura as almas penadas tinham fome de lobo esfaimado e metiam medo adamastórico, apaziguadas com ritos opíparos para retornarem ao limbo e à paz do Senhor, que nestas coisas do fabuloso nada é impossível.

 

    O mandato transcendente da igreja, em parte, apropriou-se desse ritual incarnado no Dia dos Fiéis Defuntos. O cerimonial do magusto, a fogueira e as castanhas, são resquícios residuais de sacrifícios que já foram grandes como a Arca de Noé.

 

Em dia de S. Martinho,

Lume, castanhas e vinho.

                                                                         

    A importância de S. Martinho associado à festa popular das castanhas e como patrono do vinho e dos bêbados cresceu de tal modo e ocupou quase todo o espectro festivo ligado aos magustos, relegando para plano secundário todas as outras tradições e santinhos desta época.

 

    Hoje, como os demais costumes de antanho, é um mero arremedo da pujança festiva que teve outrora, mecanicamente festejado com soberano desdém, meia dúzia de castanhas e larachas de permeio

 

Pelo S. Martinho,

Rabusca o teu soitinho

E apanhas as castanhas

Faz o teu magustinho;

Vai à tua adega,

Encerta teu pipinho

E prova o teu vinhinho;

E, se te apetecer,

Vai ao teu cortelho

E mata o teu porquinho.

 

    Em quase todo o Minho o dia de S. Martinho era celebrado com magustos de castanhas assadas em fogueiras que se acendiam nos eidos e rossios das aldeias. Festividade que se alongava noite adentro até ao cair finíssimo do orvalho, nunca escasseava a malga de vinho verde agulhento, em acenos lampeiros de atmosfera foliona.

 

Pelo S. Martinho

Prova teu vinho,

Ao cabo do ano

Já te não faz dano.

 

    S. Martinho, há que ror de anos, alcançara foros de santo popular com um conteúdo mais profundo pela analogia encavalitada com a vinhaça e a embriaguez, faceta que iremos evidenciar noutro artigo, desde que não seja nas calendas gregas.

 

Do vinho e da mulher

Livre-se o homem se puder.

 



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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Feira Anual dos Santos de Cerdal

A Última Feira Romaria Galaico-Minhota

 

    A freguesia valenciana de Cerdal, concelho de Valença, distrito de Viana do Castelo, promove a tradicional Feira dos Santos nos próximos dias 31 de Outubro, 1 e 2 de Novembro de 2009; a última grande feira/romaria do calendário anual galaico-minhoto e a mais importante entre o norte de Portugal e a Galiza.

 

    Os visitantes, aos milhares, desfrutam de um amplo espaço e de uma vasta oferta de produtos proporcionada por mais de 500 expositores distribuídos pelos diversos sectores.

 

    A feira decorre no Terreiro de São Bento da Lagoa, num espaço devidamente infra-estruturado para o efeito, junto à estrada nacional São Pedro da Torre/Paredes de Coura, a 5 minutos do acesso à A3 e das pontes internacionais.

 

    O 1 de Novembro é o principal dia deste acontecimento e é conhecido como o Dia da Feira dos Santos e o dia 2 tradicionalmente instituído como o Dia da Feira das Trocas.

 

Feira de Gado e Corridas de Cavalos

 

    Os cavalos garranos, endógenos da região, são um dos principais atractivos desta feira com as castiças e singulares licitações e mostra dos animais, por parte dos muitos criadores da região norte de Portugal e do sul da Galiza, a animarem as manhas do dia 1 de Novembro. Para além do gado cavalar este sector contará com gado bovino e caprino.

 

    As emblemáticas corridas de cavalos decorrerão no dia 1, a partir das 13h30, na Pista das Corridas.

 

As Tasquinhas e as Desgarradas

 

        Nas tascas da feira fazem-se, por tradição, as provas dos vinhos novos da região e, também, se apreciam os mais diversos petiscos, com destaque para os rojões, o caldo verde e as castanhas assadas.

 

    Nas noites, sobretudo, de 31 de Outubro para 1 de Novembro e deste para 2 de Novembro decorrem os cantares ao desafio e as desgarradas a cargo dos tocadores de concertina da região nas muitas tascas típicas montadas na feira.

 

A Feira das Lavradeiras

 

    Os espaços mais próximos à Capela de São Bento acolhem as lavradeiras da região que nesta época vendem, sobretudo, os pericos dos santos (peras pequenas), as castanhas cruas ou cozidas, as nozes, os diospiros e muitos outros produtos do campo.

 

Feira Secular

 

    A Feira dos Santos é uma feira/romaria secular e um verdadeiro ponto de encontro galaico-minhoto que cativa, ano após ano, milhares de visitantes. A feira já aparece documentada em 1758 e é um ponto de confluência de povos e onde, por excelência, se sente a alma galaico-minhota.

 

    Nas Memórias Paroquiais de 1758 esta feira surge já documentada “Nesta freguesia se faz uma feira dentro do distrito dela a doze de cada mês e em dia de Todos os Santos de cada ano e esta é de bestas (gado) e somente dura naquele dia e não é franca que paga os direitos a Sua Majestade”.

 

    O antigo Presidente da Região de Turismo do Alto Minho, Dr. Francisco Sampaio, escreveu o seguinte a propósito desta feira:

É Feira à moda antiga e sendo a última grande Feira do ano no Alto Minho, arrasta no seu imaginário aquele ar de Festa e Arraial onde se diz missa, se cumprem ex-votos e promessas, e se acotovela o povoléu das redondezas. De Viana e de Ponte, de Monção e de Melgaço, de Coura e dos Arcos, dos Ayuntamientos da Raia Galega, tudo se achega numa alegria difusa e constante entre barracas e esparabéus, do plástico e dos factos à medida, das marcas e cassetes piratas, quinquilharias e ferragens, chitas e fazendas, loiças de Barcelos, móveis de Paredes, ourives de Gondomar, garranos dos montados do Corno do Bico e piscas das lavradas de Ganfei.”

 

Valença, Feira Anual dos Santos



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 13:54
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
A PROPÓSITO DE PALAVRAS: Complexo de Caim

    Confesso! Não leio e nunca li Saramago, mas é defeito meu, pois geralmente não dedico qualquer espaço de leitura a romancistas modernos ou a romances, excepção aos cartapácios clássicos de Camilo Castelo Branco e Aquilino Ribeiro, mestres que releio acaçapado num recanto, sempre com prazer e sofreguidão.

 

    Assim, não acudo a botar faladura sobre o seu último volume e da polémica que lavra em suplício de lés-a-lés, um arraial pegado por atalhos e canelhas de Cristo, em ferroadas de alacréu.

                                                                                

    O meu motivo é mais fútil e inútil, diz respeito tão-só à grafia do nome do filho primogénito de Adão e Eva. De relance, vi na televisão um enorme cartaz publicitário à tal obra de Saramago, com a grafia Caín estampada na capa, e logo fiquei de cocuruto alboriçado, a dardejar lampejos de pasmo.

 

    Nos jornais, em prosa descuidada e ligeira, li coisas do arco-da-velha, com dislates e versões para todos os gostos. Em conhecimento de orelha, vão buscar letras ao alfabeto e garatujam Caín, Caím ou Caim, assim com’assim, sem alustro que alumie esta gentinha na noite negra. Tamanha confusão como os dilúvios.

                                                    

    Esta figura bíblica carrega uma maldição, pelos vistos passou de arganaz para a grafia do seu nome, que em hebraico significa «lança» e provém do hebreu quanha, ou do árabe kaya. Em latim, a sua origem etimológica mais próxima, lê-se na Vulgata: «Adam vero cognovit Evam uxo rem suam, quae concepit et peperit Cain dicens» (Génesis 4, 1).

                                         

    Ora bem, Caín, com acento e n, é castelhanismo puro, sacripanta desnecessário. Por conseguinte, não existe em português de lei, não o queremos por cá, dispensável por bastardia que nos entra insolente porta adentro, como prolíferas coelhas. Haja um poucochinho de brio.

                                                      

    Caím, assim, com acento, é formulação errónea e espúria de truz, um abantesma, como demonstram os bons manuais de gramática e prontuários – cruzes, credo, canhoto! –, dormentes nas bibliotecas em tempo de pressa e ignorância desmedida.

                                     

    Lembremos a ciência que está inerente a esta regra básica: as vogais tónicas i e u não são acentuadas, nem levam acento agudo, quando antecedidas de vogal com as quais não formem ditongo e estejam inseridas em sílaba terminada em l, m, n, r ou z.

                                    

    Reforcemos a forma, alancado no peso dos doutos filólogos; não se botam acentos em palavras agudas cuja tónica seja i ou u, precedido de vogal com a qual não forme ditongo, e a tónica só se acentua se for seguida ou não de s.

                            

    Para o primeiro postulado, que nos interessa agora, ordena a ortografia que se escreva Abigail, adail, Caim, cair, juiz, moinho, paul, raiz, Raul, ruim, ruir, Saul, etc.

                                

    Não é caso de morte de homem, ou desespero mediante força de tanto malucar, nem de sangria desatada, mas coisa de bom senso. Não há-de ser nada e o mundo rola ainda…, apesar do complexo de Caim e de estarem proibidos os puxões de orelha punitivos.

 



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:30
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
GENEALOGIA DE BERNARDINO ANTÓNIO GOMES

 

I – JOSÉ GOMES, natural de Coimbra, casado com Mariana Josefa Rosa Gomes. Foram pais de:
 
II – JOSÉ MANUEL GOMES, natural de Coimbra, médico municipal em Paredes de Coura (1766-1772); casado com D. Josefa Maria Clara de Sousa, filha de José Coimbra e de Clara Maria. Foram pais de:
III. 1 – D. FRANCISCA ROSA DE SOUSA GOMES, nasceu na freguesia e concelho de Paredes de Coura a 23 de Março de 1767.
III. 2 – BERNARDINO ANTÓNIO GOMES, que segue.
III. 3 – JOÃO BENTO GOMES, nasceu na freguesia e concelho de Paredes de Coura a 20 de Maio de 1770.
III. 4 – ANTÓNIO BENTO GOMES, nasceu na freguesia e concelho de Paredes de Coura a 2 de Dezembro de 1771.
 
III – Dr. BERNARDINO ANTÓNIO GOMES, nasceu a 29 Bernardino António Gomes (1768+1823)de Outubro de 1768 na freguesia de Paredes de Coura, concelho de Paredes de Coura. Faleceu a 13 de Janeiro de 1823 na sua residência, na Praça da Alegria, freguesia de S. José, cidade de Lisboa.
Casou na paroquial igreja de Nossa Senhora da Encarnação de Lisboa a 15 de Outubro de 1801 com D. Leonor Violante Rosa Mourão, nascida a 5 de Fevereiro de 1775 em Santa Justa, freguesia da cidade de Lisboa, e falecida em Lisboa a 28 de Março de 1864, filha do dr. João Carlos Mourão Pinheiro, advogado da Casa da Suplicação, e de sua segunda mulher D. Leonor Violante Rosa do Vale Mourão. Veja aqui a biografia do dr. Bernardino António Gomes. Filhos:
IV. 1 – BERNARDINO JOSÉ GOMES, baptizado na igreja paroquial da Encarnação em 1802, faleceu na tenra idade.
IV. 2 – D. HENRIQUETA LEONOR GOMES MOURÃO DE ARAÚJO, nasceu na freguesia da Encarnação, Lisboa, a 12 de Março de 1804 e faleceu no Barreiro a 23 de Abril de 1882.
Foi proprietária, benemérita e fundadora do Asilo de D. Pedro V, da vila do Barreiro.
Casada com Joaquim José de Araújo (1800+1867), filho de Francisco José de Araújo e de D. Mariana Rosa do Carmo Lopes, Senhor da Quinta da Verderena, Barreiro. Filho:
V. 2. 1 – AUGUSTO GOMES DE ARAÚJO, nasceu a 2 de Agosto de 1842 e faleceu a 2 de Janeiro de 1915.
Foi proprietário, fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Casou em Lisboa a 24 de Outubro de 1866 com D. Maria Francisca de Meuron (1849+1897), filha de Eduardo Henrique de Meuron e de D. Maria Benedita de Andrada e Sousa Pinto de Magalhães. Filhas:
VI. 5. 2. 1. 1 – D. MARIA MEURON GOMES DE ARAÚJO, nasceu em Lisboa a 22 de Setembro de 1870 e faleceu em Lisboa a 30 de Janeiro de 1948. Casou em Lisboa a 11 de Março de 1893 com Rui Rebelo de Andrade, nascido em 1862 e falecido em 1938, filho de António José Rebelo de Andrade e de D. Maria Carolina Leite da Costa Freire. Com geração.
VI. 5. 2. 1. 2 – D. MARIA HENRIQUETA MEURON DE ARAÚJO, nasceu em Lisboa a 5 de Novembro de 1873 e faleceu em Lisboa a 6 de Abril de 1934. Casou em Lisboa a 20 de Maio de 1896 com António Nunes Perestrelo de Vasconcelos, nascido em 1871 e falecido em 1928, filho de Francisco Perestrelo de Vasconcelos e de D. Leopoldina Nunes. Com geração.
IV. 3 – Prof. Doutor BERNARDINO ANTÓNIO GOMES, que segue.
IV. 4 – Dr. CUSTÓDIO MANUEL GOMES, nasceu em Lisboa a 22 de Maio de 1810 e faleceu a 31 de Janeiro de 1881.
Foi fidalgo-cavaleiro da Casa Real (26 de Maio de 1818), soldado da 6.ª Companhia do Batalhão de Voluntários de Coimbra (1826), bacharel formado em Matemática, bacharel em Filosofia (Universidade de Coimbra), secretário do Governo Geral do Estado da Índia, primeiro-oficial da Alfândega de Lisboa, administrador do Montepio das Alfândegas do Reino, deputado da Nação (1848-1856), vogal da Comissão do Ultramar (1850-1854), comendador da Ordem de Cristo, escritor.
IV. 5 – ANTÓNIO MARIA GOMES, nasceu em 1814 e faleceu vítima de tuberculose a 28 de Agosto de 1896.
Foi fidalgo-cavaleiro da Casa Real (15 de Julho de 1819), filantropo e protector das associações de beneficência, chefe da Repartição Central do Ministério da Guerra, fundador da revista PANORAMA.
 
IV – Prof. Doutor BERNARDINO ANTÓNIO GOMES, Bernardino António Gomes filho (1806+1877)nasceu em Lisboa a 22 de Setembro de 1806 e faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1877.
Foi fidalgo-cavaleiro da Casa Real (26 de Maio de 1818), alferes da 6.ª Companhia do Batalhão de Voluntários de Coimbra (1826), bacharel em Matemática (Universidade de Coimbra), doutor em Medicina (Universidade de Paris, 1831), tenente da 4.ª Companhia do Regimento de Milícias de Trancoso (1832), cavaleiro do hábito da Antiga e Mui Nobre Ordem da Torre e Espada (29 de Agosto de 1833), médico do Hospital Real de S. José (1834, 1852-1857), tenente médico do Hospital Militar da Corte, lente catedrático de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1834-1857), presidente do Conselho de Saúde Naval (15 de Dezembro de 1836), publicista, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa (1843-1844, 1864-1866), capitão-de-fragata graduado da Real Armada, director do Hospital da Marinha, fundador e redactor da GAZETA MÉDICA (1853), primeiro médico da Real Câmara (1864), presidente da Sociedade Farmacêutica Lusitana, presidente da Comissão para a Farmacopeia Nacional (1871-1876), comendador da Ordem de Cristo, comendador da Ordem de Santiago, comendador da Ordem da Torre e Espada, oficial da Legião de Honra de França, etc.
Casou na igreja paroquial da Encarnação, Lisboa, a 14 de Outubro de 1837 com D. Maria Leocádia Fernandes Tavares de Barros Gomes, filha de Francisco José Ribeiro Fernandes e de D. Leocádia Teresa Tavares, e foram pais de:
V. 1 – Eng.º BERNARDINO ANTÓNIO DE BARROS GOMES, nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de Bernardino António de Barros Gomes (1839+1910)1839 e faleceu em Lisboa a 5 de Outubro de 1910.
Foi bacharel em Ciências (Universidade de Coimbra), engenheiro florestal (Escola Superior Florestal e Agrícola de Tharandt, Alemanha, 1862), engenheiro da Repartição da Agricultura do Ministério das Obras Públicas (1864), botânico, silvicultor, geógrafo, frade lazarista da Congregação de S. Vicente de Paulo (1885), presbítero (1888), professor do Seminário dos Padres Lazaristas (1890), publicista, assassinado aquando da Implantação da República (1910).
V. 2 – Eng.º HENRIQUE DE BARROS GOMES, que segue.
 
V – Eng.º HENRIQUE DE BARROS GOMES, nasceu em Lisboa a 14 de Setembro de 1843 e faleceu em Henrique de Barros Gomes (1843+1898)Alcanhões, Santarém, a 15 de Novembro de 1898.
Foi formado em Engenharia Civil (1865), matemático, astrónomo, deputado da Nação (1869-1871; 1880-1881; 1884-1887), vogal da Comissão da Fazenda (1870-1871, 1881, 1885-1886), vogal da Comissão dos Expostos (1870), director da Sociedade das Casas de Asilo da Infância Desvalida de Lisboa (1870), director do Banco de Portugal (1873-1887; 1890-1898), vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1874-1876), presidente da Associação Comercial de Lisboa (1874-1877), sócio fundador da Sociedade de Geografia (1875), procurador à Junta Geral do Distrito de Lisboa (1878), Ministro da Fazenda (1879-1881), vogal da Comissão de Inquérito sobre o Imposto do Sal (1885), Ministro dos Negócios Estrangeiros (1886-1890), Ministro interino da Marinha e Ultramar (1887; 1888-1889), presidente da Direcção do Banco de Portugal (1887-1889), Par do Reino (31 de Março de 1887), Ministro interino da Fazenda (1889), Conselheiro de Estado (7 de Novembro de 1889), vogal da Comissão do Ultramar (1890-1891, 1893), vogal da Comissão dos Negócios Externos (1890, 1893-1894), vice-governador do Banco de Portugal (1891, 1897), Ministro da Marinha e Ultramar e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1897-1898), publicista, condecorado com a grã-cruz da Ordem de Cristo, oficial da Legião de Honra de França.
Casou com D. Rita Pessoa de Barros e Sá Gomes, filha de António José de Barros e Sá e de D. Clara Pinheiro da Cunha Pessoa. Foram pais de:
VI. 1 – D. MARIA LEOCÁDIA DE BARROS GOMES.
VI. 2 – Dr. ANTÓNIO PESSOA DE BARROS GOMES, que segue.
VI. 3 – Eng.º BERNARDINO ANTÓNIO DE BARROS GOMES (1877+1928), nasceu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1877 e faleceu em 1928.
Foi engenheiro e proprietário.
Casou em Lisboa a 9 de Agosto de 1924 com D. Maria Teresa Quintela José de Mello, filha de D. António José de Mello e de D. Maria Amélia Teixeira de Sampaio Quintela, sem geração.
 
VI – Dr. ANTÓNIO PESSOA DE BARROS GOMES, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1876.
António Pessoa de Barros Gomes Foi advogado e administrador do 2.º Bairro de Lisboa.
Casou com D. Maria Adelaide Lopes da Graça de Oliveira Monteiro, nascida no Porto a 17 de Outubro de 1879 e falecida em Lisboa em 1947, filha de António de Oliveira Monteiro e de D. Maria Lopes da Graça de Oliveira Monteiro. Filhos:
VII. 1 – BERNARDINO DA GRAÇA DE OLIVEIRA MONTEIRO DE BARROS GOMES, sem mais notícia.
VII. 2 – HENRIQUE DA GRAÇA DE OLIVEIRA MONTEIRO DE BARROS GOMES, que segue.
VII. 3 – ANTÓNIO JOSÉ DA GRAÇA DE OLIVEIRA MONTEIRO DE BARROS GOMES, sem mais notícia.
 
VII – HENRIQUE DA GRAÇA DE OLIVEIRA MONTEIRO DE BARROS GOMES, nasceu em 1901 e faleceu em 1974. Casou com Teresa Clare West (1896+1978), Filha:
 
VIII – D. MARIANA WEST DE BARROS GOMES, nasceu em Inglaterra a 25 de Maio de 1931.
Casou em Guisande, Braga, a 12 de Setembro de 1953 com Agostinho de Sousa Guedes Álvares Ribeiro, nascido no Porto a 4 de Setembro de 1927, filho de Pedro Inácio Álvares Ribeiro e de D. Maria Antónia de Castro de Sousa Guedes. Filhos:
IX. 1 – PAULO DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO, nasceu em 1954, casou em 1975 com D. Teresa Isabel Bebiano Diniz Braga, nascido em Lisboa em 1955, filha de Mário Silva Ferreira Braga e de D. Maria Regina Correia Bebiano Diniz.
IX. 2 – D. MARIA JOANA DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO, nasceu no Porto a 22 de Fevereiro de 1956; casou a 8 de Setembro de 1979 com D. Domingos Manuel de Bourbon de Sousa Coutinho, nascido em 1955, filho primogénito dos Marqueses do Funchal, D. Agostinho de Sousa Coutinho e de D. Maria da Purificação Dória Planas Cabral de Queirós e Madeira de Azevedo e Bourbon. Filhos:
X. 9. 2. 1 – D. MARIA ANA ÁLVARES RIBEIRO DE SOUSA COUTINHO, nasceu no Porto a 12 de Agosto de 1980; casou a 2 de Setembro de 2001 com José de Magalhães Gagliardini Graça, nascido em 1972, filho de Luís Drummond Borges Gagliardini Graça e de D. Maria Madalena de Magalhães e Menezes de Abreu Coutinho. Filhas:
XI. 1 – D. JOANA DE SOUSA COUTINHO DE MAGALHÃES GAGLIARDINI, nasceu a 28 de Junho de 2004.
XI. 2 – D. MADALENA DE SOUSA COUTINHO DE MAGALHÃES GAGLIARDINI, nasceu a 4 de Julho de 2007.
X. 9. 2. 2 – D. INÊS ÁLVARES RIBEIRO DE SOUSA COUTINHO, casada em 2009 com Francisco Xavier Gagliardini Graça da Silveira Montenegro.
X. 9. 2. 3 – D. AGOSTINHO ÁLVARES RIBEIRO DE SOUSA COUTINHO.
X. 9. 2. 4 – D. MARTA ÁLVARES RIBEIRO DE SOUSA COUTINHO.
IX. 3 – PEDRO TROCATO DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO.
IX. 4 – JOÃO DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO.
IX. 5 – JOSÉ LUÍS DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO.
IX. 6 – TIAGO DE BARROS GOMES ÁLVARES RIBEIRO, nasceu no Porto a 24 de Fevereiro de 1968; casou em Guisande, Braga, a 4 de Maio de 1991 com D. Marta de Sotto Mayor Leite Rodrigues, nascida em 1970, filha de Alberto Bernardo de Azevedo Leite Rodrigues e de D. Maria João de Lacerda de Sotto Mayor Rego; casou em segundas núpcias em Cascais, a 28 de Julho de 2007, com D. Mafalda Maria Champalimaud Lino, nascida em 1970, filha de Luís de Vasconcelos e Sousa Lino e de D. Maria Cristina de Mello Champalimaud.
Filhos do primeiro casamento:
X. 9. 6. 1 – D. MARIA DE SOTTO MAYOR ÁLVARES RIBEIRO, nasceu a 7 de Novembro de 1991.
X. 9. 6. 2 – FREDERICO DE SOTTO MAYOR ÁLVARES RIBEIRO
X. 9. 6. 3 – D. CATARINA DE SOTTO MAYOR ÁLVARES RIBEIRO
Filhos do segundo casamento:
X. 9. 6. 4 – TIAGO LINO ÁLVARES RIBEIRO, nasceu em Lisboa a 11 de Janeiro de 2007.
X. 9. 6. 5 – D. SOFIA LINO ÁLVARES RIBEIRO, nasceu em Lisboa a 3 de Setembro de 2009.


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Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
VIDA E OBRA DE BERNARDINO ANTÓNIO GOMES

 Dr. Bernardino António Gomes

DR. BERNARDINO ANTÓNIO GOMES (Paredes de Coura, 1768 + Lisboa, 1823), nasceu a 29 de Outubro de 1768 na freguesia de Paredes de Coura, concelho de Paredes de Coura, filho do dr. José Manuel Gomes e de D. Josefa Maria Clara de Sousa; neto paterno de José Gomes e de Mariana Josefa Rosa, e pela via materna neto de José Coimbra e de Clara Maria, todos de Coimbra.
 
Foi baptizado a 3 de Novembro de 1768 na paroquial igreja de Santa Maria de Paredes, concelho de Coura, pelo abade João Bento de Brito de Araújo e Castro, e serviram de padrinhos o sargento-mor Bernardino José de Castro e Sousa Barreto de Menezes e sua mulher D. Maria Antónia da Cunha de Antas Brandão Pereira, de Agualonga, e assistiram como testemunhas António de Castro Sousa e Menezes, filho dos padrinhos, António Inácio José Pereira da Cunha Lobo e Castro, Sebastião Luís Pereira da Cunha Lobo e Castro e Francisco José Pereira de Castro. Seu pai, o dr. José Manuel Gomes foi médico municipal do concelho de Coura entre 1766 e 1772.
 
Casou na igreja paroquial de Nossa Senhora da Encarnação de Lisboa a 15 de Outubro de 1801 com D. Leonor Violante Rosa Mourão, viúva. D. Leonor Violante Rosa Mourão nasceu a 5 de Fevereiro de 1775 e foi baptizada a 7 de Fevereiro de 1775 na igreja paroquial de Santa Justa, Lisboa, filha do dr. João Carlos Mourão Pinheiro, advogado da Casa da Suplicação, e de sua segunda mulher D. Leonor Violante Rosa do Vale Mourão. Casara em primeiras núpcias na ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, Lisboa, a 31 de Janeiro de 1794 com do dr. Miguel Joaquim Carvalho de Oliveira, médico, falecido em Carnide em 1799. D. Leonor Violante Rosa Mourão faleceu em Lisboa a 28 de Março de 1864.
 
O dr. Bernardino António Gomes faleceu a 13 de Janeiro de 1823 na sua residência, na Praça da Alegria, freguesia de S. José, cidade de Lisboa.
                                                                      
Foi doutor em Medicina (21 de Maio de 1793); médico municipal interino em Aveiro (Setembro de 1793-Março de 1795); médico efectivo do partido médico municipal da cidade de Aveiro (20 de Março de 1795-Janeiro de 1797); capitão-de-fragata médico da Real Armada (9 de Janeiro de 1797-22 de Setembro de 1810); capitão-de-fragata médico da Esquadra Naval do Brasil (16 de Janeiro de 1797-21 de Outubro de 1801); nomeado médico municipal da vila de Sintra, por carta de provisão da Rainha D. Maria I, que não surtiu efeito por servir como médico da Real Armada (26 de Fevereiro de 1798).
                                           
Estuda as propriedades da canela e da caneleira do Brasil (1798); louvado pelo Senado da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, pelos seus trabalhos científicos (21 de Novembro de 1798); descobriu a ipecacuanha fusca no Brasil (1801); capitão-de-fragata médico da Esquadra Naval de Gibraltar (2 de Abril de 1802-31 de Março de 1803); investigador do tratamento da febre infecciosa pela água fria (1802).
                                                           
Louvado pelos seus serviços durante a epidemia de febre infecciosa na Esquadra Naval de Gibraltar, pelo ministro da Marinha, Visconde de Anadia (carta de 21 de Agosto de 1802); médico do Hospital da Marinha (6 de Abril de 1804); D. Leonor Violante Rosa Mourão saiu de casa e recolheu-se numa moradia no Campo Grande por alegado adultério de seu marido (1805); D. Leonor Violante Rosa Mourão regressou ao lar depois de pedir «perdão pelos seus desatinos» (1805); médico principal do Hospital Militar da Corte de Lisboa (Setembro de 1805); descobriu a chinchonina (1806-1810); sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa (28 de Fevereiro de 1810).
                                                      
Médico do Lazareto da Trafaria (26 de Julho de 1810); comunica à Academia Real das Ciências de Lisboa os resultados das suas pesquisas sobre a casca de quina, onde refere o isolamento do alcalóide que denominou “chinchonino”, tornando-se assim o primeiro investigador mundial a obter um alcalóide da quina e no isolamento de constituintes de fármacos vegetais (7 de Agosto de 1810); exonerado a seu pedido do serviço de médico da Real Armada, por portaria do Príncipe Regente (6 de Setembro de 1810).
                                                   
Dispensado da diligência de inquirição de geração para receber o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo (11 de Março de 1812); fundador e director da Instituição Vacínica da Academia Real das Ciências de Lisboa, destinada a estabelecer a vacinação gratuita (8 de Abril de 1812); sócio efectivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, pela classe das Ciências Naturais (6 de Junho de 1812); cavaleiro do hábito da Ordem de Cristo (17 de Novembro de 1812); colaborador do JORNAL DE COIMBRA (1812); polémica com o professor dr. José Feliciano de Castilho acerca da descoberta da chinchonina (Agosto de 1812-Janeiro de 1817).
                                                  
Vogal da Junta de Saúde do Reino (28 de Agosto de 1813); D. Leonor Violante Rosa Mourão volta a insistir na tese do adultério do marido, tendo-se retratado novamente (1814); presidente da Instituição Vacínica (1814-1816); sócio de mérito da Academia Real das Ciências de Lisboa (1 de Dezembro de 1814); investigador sobre o valor de vários desinfectantes químicos profiláticos, como o ácido acético e o gás sulfuroso (1815); investigar das moléstias de pele, chamadas as boubas (1815).
                                                            
Médico do Hospital de S. Lázaro, de Lisboa (Março de 1817-Julho de 1817); médico honorário da Real Câmara (1817); fidalgo-cavaleiro da Casa Real (1817); médico privativo da Princesa Real D. Leopoldina, Arquiduquesa de Áustria, na Corte Real do Rio de Janeiro (Julho de 1817-Janeiro de 1818); louvado pela Condessa de Kunburg, camareira-mor da Princesa Imperial pela «maneira tão delicada» como desempenhou as funções de médico privativo da Princesa D. Leopoldina de Áustria (Janeiro de 1818); D. Leonor Violante Rosa Mourão patrocina a ideia do casamento da filha Henriqueta Leonor com um contratador de tabaco, «um homem de uma grande fortuna» (Fevereiro de 1818); fundador da Dermatologia em Portugal (1817); médico do Hospital de S. Lázaro, de Lisboa (1819).
                                                     
Dr. Bernardino António Gomes recolhe a sua filha D. Henriqueta Leonor à custódia do Real Mosteiro da Encarnação para impedir o casamento desta patrocinado pela mulher (Fevereiro de 1819); libelo de divórcio entre D. Leonor Violante Rosa Mourão e o dr. Bernardino António Gomes (Março de 1819); D. Leonor Violante Rosa Mourão foi internada no Mosteiro de Sant’Ana, Lisboa, por aviso dirigido ao Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino (13 de Abril de 1819); negado o pedido de divórcio perpétuo intentado por D. Leonor Violante Rosa Mourão por Acórdão do Patriarcado, por a autora não provar as acusações de adultério e de maus-tratos (11 de Abril de 1820); D. Leonor Violante Rosa Mourão recorre da sentença para o Tribunal da Nunciatura (Maio de 1820).
                                                             
Fundador da psicoterapia empírica em Portugal; investigador sobre o tratamento das ténias (1822); criou o Horto Botânico da Escola Médica de Lisboa; escreveu o seu testamento pelo qual declarou como herdeiro universal seu filho dr. Bernardino António Gomes (26 de Novembro de 1822); botânico; cientista; latinista; químico; parasitologista; higienista; escritor científico.
                                              
Homenageado pela Academia Real das Ciências de Lisboa (20 de Junho de 1901); homenageado pela Secção de História da Medicina da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa (8 de Março de 1924); homenageado em sessão extraordinária pela Câmara Municipal de Lisboa (21 de Março de 1924); aprovada a proposta para colocação duma lápide na frontaria da casa onde residiu em Lisboa, por proposta da Câmara Municipal de Lisboa (18 de Junho de 1924).
 
A Comissão Executiva da Câmara Municipal de Paredes de Coura deu 100$00 escudos à comissão de médicos de Lisboa e Porto que festejou o centenário do falecimento do dr. Bernardino António Gomes e determinou que se abrisse uma subscrição pública para ajudar ao pagamento do subsídio camarário e colocar o seu retrato na Sala das Sessões (16 de Outubro de 1924); oficialmente inaugurado o retrato do dr. Bernardino António Gomes no Salão Nobre da Câmara Municipal de Paredes de Coura, com discurso de Júlio de Lemos sobre a vida do cientista, sendo descerrado o pano pelo dr. João Luís Afonso Viana (12 de Setembro de 1925).
                                            
Por proposta do vice-presidente Francisco Alexandre de Sousa Mata, a Câmara Municipal de Paredes de Coura atribuiu a nova designação de Rua do Dr. Bernardino António Gomes ao arruamento que parte do Largo do Visconde de Mozelos à Feira do Gado (12 de Novembro de 1925); colocada uma lápide na casa onde viveu na Praça da Alegria, n.º 21, cidade de Lisboa (24 de Junho de 1926); inauguração do monumento em sua honra no Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa (14 de Novembro de 1926).
 
Atribuída a designação de Largo do Dr. Bernardino António Gomes, situado na freguesia de S. Vicente de Fora, por edital da Câmara Municipal de Lisboa (27 de Agosto de 1930); declarado fundador da Dermatologia portuguesa (1968); declarado patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, que atribui o Prémio Bernardino António Gomes; aprovada a proposta do vereador Mário Montenegro para mandar erigir um busto assente em pedestal numa praça pública de Paredes de Coura (6 de Fevereiro de 1984).
                  
Escreveu e publicou:
- Observações Sobre a Canela do Rio de Janeiro Escritas a Rogo do Senado da Câmara da Câmara da Mesma Cidade, em 8 de Maio de 1798, e Ultimamente Rectificadas, Adicionadas e Oferecidas ao Mesmo Senado, manuscrito, Rio de Janeiro, 1798;
- Memória Sobre a Ipecacuanha Fusca do Brasil ou Cipó das Nossas Boticas, Lisboa, 1801;
- Memória Sobre a Canela do Rio de Janeiro, Brasil, 1802;
- Método de Curar o Tifo ou Febres Malignas Contagiosas pela Efusão da Água Fria, com a Teoria do Tifo, Segundo os Principio da Zoonomia de Darwin e Explicação do Modo de Obrar da Efusão Fria e Uma Carta ao Dr. James Currie com Reflexões e Observações Sobre Este Método, Lisboa, 1806;
- Ensaio Sobre o Chinchonino e Sobre a Sua Influência na Virtude da Quina e Doutras Cascas, Lisboa, 1812;
- Observações Botânico-Médicas Sobre Algumas Plantas do Brasil, Escritas em Latim e Português, Lisboa, 1812;
- Carta de Bernardino António Gomes, Dirigida aos Redactores do «Jornal de Coimbra», Coimbra, Outubro de 1812;
- Segunda e Última Réplica aos Senhores Redactores do «Jornal de Coimbra» por Bernardino António Gomes, Dezembro de 1812;
- Carta aos Redactores do «Investigador Português», Seguida de um Artigo em Resposta ao que a seu Respeito Dissera o «Jornal de Coimbra» n.º XII, Janeiro de 1813;
- Conta Dada na Congregação dos Membros da Instituição Vacínica da Academia Real das Ciências pelo Director Bernardino António Gomes em 15 de Outubro de 1812, Lisboa, 1813;
- Conta da Instituição Vacínica à Academia Real das Ciências de Lisboa, Respectiva ao Trimestre de Março, Abril e Maio [de 1813], Lisboa, 1814;
- Experiências Químicas Sobre a Quina do Rio de Janeiro Comparada com Outras, Lisboa, 1814;
- Recopilação Histórica dos Trabalhos da Instituição Vacínica, Durante o Seu Primeiro Ano, Pronunciada em Sessão Pública em 14 de Junho de 1813, Lisboa, 1814;
- Carta de Bernardino António Gomes de 15 de Dezembro de 1814, no «Investigador Português», Fevereiro de 1815;
- Carta de Bernardino António Gomes de 28 de Fevereiro de 1815, no «Investigador Português», Abril de 1815;
- Conta Anual da Instituição Vacínica da Academia Real das Ciências de Lisboa, Pronunciada na Sessão Pública de 1815, Lisboa, 1868;
- Ensaio Sobre as Boubas, Lisboa, 1815;
- Memória Sobre a Desinfecção das Cartas, Lisboa, 1815;
- Resposta ao Papel de José Feliciano de Castilho, Intitulado «Reflexões», no «Investigador Português», Janeiro de 1816;
- Resposta às denominadas «Reflexões» de José Feliciano de Castilho, por Bernardino António Gomes, no «Investigador Português», Janeiro de 1817;
- Ensaio Dermosográfico ou Sucinta e Sistemática Descrição das Doenças Cutâneas Com Indicação dos Respectivos Remédios, Lisboa, 1820;
- Memória Sobre os Meios de Diminuir a Elefantíase em Portugal e de Aperfeiçoar o Conhecimento e a Cura das Doenças Cutâneas, Oferecida às Cortes de Portugal de 1821, Pedindo a Sua Atenção Para o Estado da Elefantíase em Portugal, Lisboa, 1821;
- Carta aos Médicos Portugueses Sobre a Elefantíase Noticiando-lhes Um Novo Remédio Para a Cura Dessa Enfermidade, Lisboa, 1821;
- Memória Sobre a Virtude Tenífuga da Romeira, Com Observações Zoológicas e Zoonómicas Relativas à Ténia, Lisboa, 1822;
- Memória Sobre a Casca da Raiz da Romeira, Lisboa, 1822;
- Análise das Sentenças Proferidas Pelo tribunal da Nunciatura no Pleito de Divórcio Proposto por D. Leonor Violante Rosa Mourão a Bernardino António Gomes, Lisboa, 1822;
- Ensaio Dermosográfico ou Sucinta e Sistemática Descrição das Doenças Cutâneas Com Indicação dos Respectivos Remédios, 2.ª edição, Lisboa, 1823;
- História de Uma Oftalmia Epidémica Observada a Bordo de Um Navio Hospital, Coimbra;
- Memória Sobre a Enfermidade de que Faleceu o Desembargador José Viana Godinho, na Qual se Refuta a Opinião … Sobre a Sua Causa, s.d.

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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 10:35
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
PROVÉRBIOS POPULARES 28 - A Sabedoria Popular Sobre o Casamento

 

·        À bodas e baptizados, só vão os convidados.
·        A casar e a embarcar, nada de aconselhar.
·        A minha filha hei-de casar, se a minha vizinha deixar.
·        A minha filha honrada há-de casar, se a minha vizinha deixar.
·        A moça da tua terra limpa-lhe a ramela e casa com ela.
·        À mulher casada, o marido lhe basta.
·        A mulher chora antes do casamento, o marido depois.
·        Antes casada arrependida que freira aborrecida.
·        Antes de casar pensa bem o que fazes.
·        Antes filha mal casada, que bem amancebada.
·        Antes que cases, olha o que fazes, não te arrases.
·        Antes que cases, olha o que fazes.
·        Ao casamento, segue-se o arrependimento.
·        Casa o filho quando quiseres e a filha quando puderes.
·        Casamento chuvoso, casamento venturoso.
·        Casamento de imposição é de pouca duração.
·        Casamento de imposição, ninguém sabe a duração.

Padornelo, muro florido numa casa no lugar do Sobreiro



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:01
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
A PROPÓSITO DE PALAVRAS: Os Dias da Semana

 

    A Língua Portuguesa, tem entre outras particularidades, a de se distinguir na forma e no modo como deno­mina os dias da semana, fenómeno que não tem par nas línguas românicas, germânicas ou célticas.
 
    Nós dizemos terça-feira, mas os espanhóis de fala castelhana dizem martes, os catalãos dimarts, os franceses mardi, os transalpinos martedì, os britâ­nicos Tuesday, os holandeses Dinsdag, e os germânicos Dienstag.
 
    O caro leitor, curioso como eu, tem de concordar o quanto extraordinário e deveras interessante é esta nossa especificidade. Vamos agora perceber qual a razão dessa distinção, e para tal temos que cavalgar a História, para melhor entendimento.
 
    Venha co­migo, por favor e não precisa de socas para a caminhada, vou explicar esta singularidade da nossa linguagem, mas traga uma porção de amena paciência.
 
    Todos os povos europeus e de outras paragens utilizavam um repertório astrológico para designar a periodização de sete dias, a que chamaremos semana «astrológica» ou «planetária».
 
    Tudo começou a milhares de anos entre os caldeus – povo dado à astronomia e que habitava onde hoje é o Iraque – que na altura conceberam o conceito de unidade rela­cionando os sete dias da semana com as sete esferas ou planetas que eles conheciam e observavam no espaço, incluindo o Sol e a Lua, para além de Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Saturno. Cada dia era devotado a um planeta ou corpo celeste, dando-lhe o seu nome.
 
    Milhares de anos depois, no decurso do século II a.C. os Romanos tinham um calendário deveras bizarro, o qual dividia os meses em três períodos, as calendas, as nonas e os idos.
 
    Aceitaram esta semana planetária e a partir da activi­dade militar do seu Império impuseram a mesma às suas províncias e, por influência cultural, aos demais vizinhos.
 
    Desta forma uma mancha de povos e nações que iam desde – onde hoje estão – Portugal à Alemanha e da Inglaterra à Itália, todos sem excepção diziam o dia do Sol, o dia da Lua, o dia de Marte, o dia de Mercúrio, o dia de Júpiter, o dia de Vénus e o dia de Saturno, que eram também venerados como deuses da mitologia greco-romana.
 
    Com o triunfo do Cristianismo, para a Igreja Católica de Roma tornou-se um absurdo inaceitável ter um calendário com nomes de deuses pagãos, deste modo propôs cerca do ano de 330 (séc. IV) um novo calendário.
 
    Querendo distin­guir-se dos hebreus, transferiram o seu «dia santo» do sábado judaico, para o dia seguinte, ao qual chamaram dies do­minicus, isto é, o dia do Senhor, sendo que os outros dias foram pura e simplesmente numerados: secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria.
 
    O dia santo dos judeus recebeu o nome latinizado de sabbatum, sabattus. Aquela palavra latina feria, significava «dia de festa», e sendo assim, segunda-feira era o «segundo dia da festa do Senhor» ou «o segundo dia festivo depois do dia do Senhor», e por aí fora.
 
    Apesar da vitória do Cristianismo, o poviléu europeu estava já inquinado e muito habituado às designações da chamada semana planetária a qual arreigou-se de tal maneira, que apesar dos esforços, foi difícil a Igreja impor os nomes de origem litúr­gica. Houve resistência activa e passiva e as atitudes geradas foram diferentes.
 
    As línguas germânicas, o inglês e o holandês conservaram integralmente a designação planetária com os deuses pagãos. O francês, italiano e castelhano optaram por uma relação mista, onde somente o domingo e o sábado têm origem eclesiás­tica, e os outros remontam à semana astrológica.
 
    Entre os idiomas ocidentais, o Português é o único que aceitou inte­gralmente a terminologia litúrgica imposta pelo catolicismo.
 
    Cento e quarenta e dois anos volvidos após o Papa S. Silvestre ter proposto a nova denominação tudo estava igual. Foi S. Martinho de Dume (520+579), um dos mais eruditos arcebispos de Braga, que durante o II Concílio bracarense por ele convo­cado e presidido em 572, declarou a nomenclatura astrológica pagã como um hábito, crença e rito contrários à doutrina e à fé da religião.
 
    Desta forma proibiu a sua divulgação em documentos oficiais e notariais, ou durante as prédicas religiosas, o que contribuiu para a eliminação da denominação pagã dos dias da semana nesta área periférica do Noroeste da Península Ibérica, sendo substituídos pela numeração ordinal e a palavra feira (feria).
 
    Quando se formou o Reino de Portugal a partir da Nobreza minhota, esta designação estava já tão entranhada, que daí passou através da Língua Portuguesa, ao resto do País, ao Brasil e demais países lusófonos, e ficou sendo caso excepcional e ímpar no universo da linguística. Ainda bem, assim temos alguma coisinha só nossa!
 
 “Planetas”  
Sol
Lua
Marte
Mercúrio
Júpiter
Vénus
Saturno
Roma         
dies solis
dies dominicus
dies lunae
dies martis
dies mercurii
 dies jovis
dies veneris
dies saturni
dies sabattus
Português  
domingo
segunda-feira
terça-feira
quarta-feira
quinta-feira
sexta-feira
sábado
Galego
domingo
luns
segunda feira
martes
terza feira
mércores
cuarta feira
xoves
quinta feira
venres
sexta feira
sábado
Castelhano  
domingo
lunes
martes
miércoles
jueves
viernes
sábado
Catalão
diumenge
dilluns
dimarts
dimecres
dijous
divendres
dissabte
Francês       
dimanche
lundi
mardi
mercredi
jeudi
vendredi
samedi
Italiano      
domenica
lunedì
martedì
mercoledì
giovedì
venerdì
sabato
Inglês         
Sunday
Monday
Tuesday
Wednesday
Thursday
Friday
Saturday
Alemão       
sonntag
montag
dienstag
mittwoch
donnerstag
freitag
samstag
 


publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:30
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
MEDICINA POPULAR DO ALTO MINHO II

 

Constipação – Para curar uma constipação gravíssima, complicada com tosse e dores de cabeça, à noite esfregava-se o corpo do paciente com aguardente, a cabeça com vinagre e fazia-se um escalda-pés em água bem quente, por vezes com sal grosso e óleos. Para acalmar a tosse fervia-se uma pele de cobra, cuja infusão se tomava durante três noites. O doente recolhia ao leito, muito bem agasalho e comia sopas de vinho, açúcar e broa. Não podia sair de casa, nem da cama sequer, durante três dias. No fundo, era o famoso «abafa-te, abifa-te e avinha-te».
 
Constipação – Cura-se uma constipação, em que esteja o nariz muito tomado, pondo a arder num caco três pinhas verdes, uma pouca de palma, folhas de alho, alecrim e excremento de vaca de três cantos da porta do forno – que tenha sido usado para tapar a porta do forno –, tomando-se fumigações desse vapor.
 
Constipação – Para curar uma catarreira ferve-se vinho com unto e toma-se com açúcar.
 
Constipação – Cura-se a tosse e as constipações, tomando chá de milho vermelho cozido.
 
Cravos – Para tirar os cravos dos dedos, faz-se um preparado com leite derramado sobre um figo verde, que depois é deitado no cravo e deixava-se secar, repetindo a dose várias vezes. Prometia-se, também, uma dúzia de cravos em flor ou uma dúzia de ovos a S. Bento. Segundo a crença popular os cravos são apanhados quando alguém conta as estrelas à noite. Receita da região do Neiva, Viana do Castelo.
 
Dentes – Para curar uma dor de dentes, mete-se um ramo de arruda no ouvido do lado contrário. A arruda é uma planta lenhosa espontânea da família das Rutáceas e cheiro muito desagradável.



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 19:35
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
CANCIONEIRO TRADICIONAL DO MINHO 12

 

Amor da variedade
Eu não fui que variei;
Variaram os meus olhos
Quando para ti olhei.
 
 
Anda comigo Rosinha
Para o meio da devesa;
Tens uma hora de alegria,
Nove meses de tristeza.
 
 
Anel das setes pedrinhas
Feito de pedraria;
Eu não te posso deixar
Parece mesmo feitiçaria.
 
 
À noite quando me deito
Rezo à Virgem Maria;
Para sonhar toda a noite
Com quem penso de dia.

Rubiães: ponte romano-medieval



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 00:30
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Domingo, 16 de Agosto de 2009
DICIONÁRIO DE FALARES DO MINHO XIII

 

ACEIRO, substantivo masculino. Rego ou cortes que se abre na floresta e no mato para evitar que um incêndio se propague.
 
ACENDEDALHO, substantivo masculino. Acendalha; tudo o que é facilmente combustível e é usado para acender fogo. Termo de Arcos de Valdevez.
 
ACENTE. Erva parecida com o absinto, a qual é muito empregue na medicina caseira.
 
ACESSOADO, adjectivo. Solo humedecido.
 
ACESSOAR, verbo transitivo. Humedecer a terra.
 
ACEZANAR. Acirrar; irritar; atenazar. Formado a partir do cruzamento de atenazar com acirrar, por influência de cizânia.
 
ACHA, substantivo feminino. Pedaço de madeira cortada, usada para queimar; lenha para o lume.
 
ACHABAÇAR, verbo transitivo. Quebrar; fazer em cacos.
 
ACHANZAR, verbo transitivo. Aplanar o terreno, desterroando-o com o olho da enxada; alisar. Formado a partir de chão, onde o -z- surge como infixo eufónico.
 
ACHARADO, adjectivo. Medida de géneros secos e sólidos, ajustado com a mão.

Padornelo, lugar de Covas, em Fevereiro de 2009, às 19h30



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 00:30
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Domingo, 2 de Agosto de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA IX

Homenagem ao general Pereira Coutinho

    Pergaminho iluminado a cores e oiro de homenagem ao general D. Miguel Pereira Coutinho, oferecido por ocasião do fim da sua comissão de serviço como comandante do Governo Militar de Lisboa, cargo que exerceu entre Março de 1948 e Dezembro de 1952, desenhado e iluminado por António Lima e João Paulo de Abreu e Lima em 1952.
                        
    Uma espantosa cercadura semeada com motivos vegetalistas, centrada com uma janela manuelina, envolvida pela cruz de Cristo e cruz de S. Bento de Avis, com as armas de Coutinho (I), Pereira (II), Azevedo (III) e Pacheco (IV), com elmo, virol, paquife, coronel de nobreza e timbre de Coutinho. Pendente o colar da Ordem Militar da Torre e Espada.
 
    Incipit com os dizeres “As elevadas virtudes do General D. Miguel Pereira Coutinho. Homenagem das tropas do Governo Militar de Lisboa”. Em nota de rodapé a inscrição latina de autoria com os dizeres “ANTONIUS LIMA ET JOANNES PAULUS DE ABREU E LIMA INVENIERUNT ET PINXERUNT – OLISIPPO ANNO DOMINI MCMLII”.


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Domingo, 26 de Julho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA VIII

Logotipo de Alfredo da Silva - Abreu e Lima

Logotipo do Centenário do Nascimento de Alfredo da Silva, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1971.

 

Logotipo da Universidade Livre - Abreu e Lima

Logotipo da Universidade Livre, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1976.

 

Logotipo da Universidade Internacional - Abreu e Lima

Logotipo da Universidade Internacional, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1986.

 

Logoitipo do ANTT - Abreu e Lima

Logotipo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1990.

 

Logotipo do Europarque - Abreu e Lima

Logotipo do Europarque, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima e apresentado a concurso em 1995.


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Sábado, 18 de Julho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA VII

Ex-líbris de Manuel Noronha e Andrade - Abreu e Lima

Ex-líbris de Manuel Farinha de Noronha e Andrade, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1984 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo ao balão com as armas de Noronha, com filete sobre os quartéis das armas de Portugal, e por diferença um crescente de prata, com coronel de nobreza, elmo, mantelete, timbre de Noronha e dois anjos tenentes a segurar o elmo. Pendente de fita a insígnia da Ordem de Soberana e Militar Hospitalária de Malta. A identificação do possuidor em caracteres germânicos envolvendo o conjunto.

 

Ex-líbris do 2.º Conde de Albuquerque - Abreu e Lima

Ex-líbris de Duarte Diniz de Andrade Albuquerque Bettencourt, 2.º Conde de Albuquerque, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1990 e gravado por litografia. É um escudo esquartelado com as armas de Soares de Albergaria (I), Andrade (II), Câmara (III) e Bettencourt (IV) e sobre-o-todo as armas de Albuquerque, com elmo, paquife, coronel de conde e timbre de Albuquerque, enquadrado por uma elegantíssima moldura, tendo por suporte dois grifos. Pendente de fita a insígnia de Cavaleiro de Honra e Devoção da Ordem de Soberana e Militar Hospitalária de Malta. Listel com os dizeres PERTENÇO AO II CONDE DE ALBUQUERQUE.

 

Ex-líbris de Duarte de Albuquerque de Athayde - Abreu e Lima

Ex-líbris de Duarte Mateus de Andrade Albuquerque Bettencourt de Athayde, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1991, com impressão litográfica. É um escudo esquartelado com as armas modernas de Albuquerque (I), Pereira (II), Ataíde (III) e Freire de Andrade (IV), com elmo, virol, mantelete e timbre de Pereira, tendo por suporte dois grifos. Listel com a identificação do possuidor.

 

Ex-líbris de Francisco de Abreu e Lima - Abreu e Lima

Ex-líbris de Francisco Maia de Abreu e Lima, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1999, com impressão tipográfica. É um escudo partido com as armas de Abreu (modernas) e Lima (antigo), com elmo, virol, mantelete e timbre de Abreu, com a divisa CERTUS IN INCERTA. Identificação da Casa do Antepaço, de Ponte de Lima.


publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 16:32
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Domingo, 5 de Julho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA VI

Ex-libris de Francisco de Abreu Castelo Branco - Abreu e Lima

Ex-líbris de Francisco José de Abreu Castelo Branco, Conde de Fornos de Algodres, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1974 e gravado a zincogravura. É um escudo esquartelado com as armas de Abreu, Castelo Branco, Cardoso e Melo, com coronel de conde e timbre de Abreu, tudo envolvido numa cercadura.

 

Ex-líbris de Vitorino Nemésio - Abreu e Lima

Ex-líbris do professor dr. Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1981 e gravado a buril por António Paes Ferreira em 1989. É um timbre das armas da família Evangelho, tendo por fundo um lisonjado intercalado com as rosas das armas da família Baldaia e os crescentes das armas da família Homem, com um elmo de frente e virol. Uma tarja superior e outra inferior com os dizeres “EX BIBLIOTHECA” “NEMESIANA”. Nota: Vitorino Nemésio nunca usou este ex-líbris, que é póstumo, tendo sido colado nos seus livros doados à Biblioteca de Angra do Heroísmo.

 

Ex-líbris de Augusto de Atahyde - Abreu e Lima

Ex-líbris do professor dr. Augusto de Athayde Soares de Albergaria, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1984 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo esquartelado com as armas de Pereira (I e IV) e de Ataíde (II e III), carregado por diferença com um cardo de ouro florido de azul, com elmo, virol, paquife e timbre de Pereira, e como suporte duas onças bandadas com quatro bandas de prata, que correspondem ao timbre de Ataíde. Pendente de fita as insígnias da Ordem de Cristo e da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de Malta. Tudo enquadrado por uma janela, e listel com o nome do possuidor.

 

Ex-líbris de Martim de Albuquerque - Abreu e Lima

Ex-líbris do professor dr. Martim Eduardo Corte-Real de Albuquerque, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1984 e gravado em aço por António Paes Ferreira. É um virol e timbre de Albuquerque, com o nome do possuidor em caracteres germânicos envolvendo o conjunto em círculo, encerrado por uma flor-de-lis.


publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 11:32
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Domingo, 28 de Junho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA V

Ex-líbris da Imprensa Nacional - Abreu e Lima

Ex-líbris da Imprensa Nacional desenhado por António Lima, em 1958, concluído com cercadura desenhada por João Paulo de Abreu e Lima. Uma prensa medieval, com um impressor em acção de estampagem e um delineador a supervisionar a prova de estado, envolvida por elegante cercadura alegórica de motivos vegetalistas, as quinas de Portugal na tarja ao alto, as tarjas laterais com a esfera armilar e na tarja inferior um listel branco com o nome da instituição.

 

Ex-líbris de D. Isabel Rita de Castelo Branco - Abreu e Lima

Ex-líbris de D. Isabel Rita Schedel de Castelo Branco (Pombeiro), desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1962, impresso por impressão tipográfica. O nome próprio, Isabel Rita, envolvido por uma cercadura oval de motivos vegetalistas e florais, atada por laço.

 

Ex-líbris de D. Maria Luísa Infante da Câmara

Ex-líbris de D. Maria Luísa Ribeiro da Silva Infante da Câmara de Almeida Garrett, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1963 e gravado em aço por António Paes Ferreira. Um monograma com as iniciais M.L.I.C., envolvido por cercadura oval de motivos vegetalistas e florais, laçada na porção inferior.

 

Ex-líbris de Jan de Ornelas Tomaszewski

Ex-líbris de Jan de Ornelas Tomaszewski, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1965 e gravado em cobre por Jan Jacquin. Um escudo esquartelado: I e IV leão de púrpura, coroado; II e III armas de Ornelas; sobreposto um escudete com as armas de Tomaszewski; com elmo, coronel de marquês, mantel e timbre de Tomaszewski.

 

Ex-líbris de Maurício Vieira de Brito - Abreu e Lima

Ex-líbris de Maurício Vieira de Brito, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1968 e gravada em aço por Isaías Pires Peixoto. Complexa e elegante composição, apresenta duplo listel com os dizeres “CARITAS FIDEI PRAXIS” e “EX BIBLIOTECA VIEIRA DE BRITO.

 

Ex-líbris de Martim de Albuquerque

Ex-líbris de Martim Eduardo Corte-Real de Albuquerque, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1969 e gravado a buril por Isaías Pires Peixoto em 1970. Escudo esquartelado com as armas de Tavares, Silva, Araújo e Albuquerque, carregado por diferença com uma brica de prata com um M, com elmo, virol, paquife e timbre de Albuquerque, listel com a identificação do possuidor, tudo enquadrado por uma janela manuelina, encimada por uma Cruz de Cristo.

 

Ex-líbris de Pedro da Rocha de Araújo - Abreu e Lima

Ex-líbris de Pedro Rocha de Araújo, desenhado e pintado por João Paulo de Abreu e Lima em 1969, e impresso em quadricromia litográfica. Representa a nau quinhentista “Frol de la Mar”, cercadura policromada com motivos vegetalistas e florais, a tarja superior com a rosa-dos-ventos e na tarja inferior as armas de Portugal, com coroa real aberta, seguras por dois anjos tenentes. Listel interior pousado no mar com identificação do possuidor, e duplo listel na tarja inferior com os dizeres “NÃO VOS HÃO-DE FALTAR GENTE FAMOSA” e “HONRA VALOR E FAMA GLORIOSA”.


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Domingo, 21 de Junho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA IV

Ex-líbris do Cadetes da Escola Naval - Abreu e Lima

Ex-líbris da Secção Cultural dos Cadetes da Escola Naval, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1963, imprimido em impressão tipográfica. Escudo francês estilizado, com uma águia estendida de negro, segurando um livro aberto, acompanhado com uma lira e uma tocha, carregado com três âncoras de prata, suspenso e envolvido por um cordão, com uma borla de cada lado.

 

Ex-líbris de João Lobo - Abreu e Lima

Ex-líbris de João Manuel da Fonseca Lobo de Oliveira, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1963, imprimido em impressão tipográfica. Uma âncora sustida por dois lobos, encimada por uma cruz de três braços em triângulos isósceles, carregada de outra cruz de prata.

 

Ex-líbris de Vasco Bensaude - Abreu e Lima

Ex-líbris de Vasco Elias Bensaúde, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1960, gravado em madeira por Manuel Nuno de Abreu e Lima. Um pendão de prata de duas pontas, hasteado e flutuando para a esquerda, carregado com uma âncora, a haste com uma esfera armilar, cordões e borlas. Listel branco com a identificação do possuidor. Existe outro ex-líbris gravado em aço por António Paes Ferreira.

 

Ex-líbris de D. Maria Amélia de Mello - Abreu e Lima

Ex-líbris de D. Maria Amélia da Silva José de Mello, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1965 e gravado a buril por Isaías Pires Peixoto. É um unicórnio batalhante, sob uma lisonja, com armas plenas de Melo, toda a composição envolvida por um listel branco com os dizeres “MARIA AMÉLIA DE MELLO – TORRE VELHA – BOCA DO INFERNO”.

 

Ex-líbris do general Câmara Pina - Abreu e Lima

Ex-líbris do general Luís Maria Portocarrero da Câmara Pina, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1965 e gravado por zincogravura. É um virol e timbre de Pina, ramo da Guarda, uma cabeça de leão de ouro, saindo da boca um ramo de pinheiro verde. Listel branco com a identificação do possuidor.

 

Ex-líbris de José Pinto de Sousa - Abreu e Lima

Ex-líbris de José da Cruz Pinto de Sousa, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1966, gravado a buril por Isaías Pires Peixoto. Com duplo listel com os dizeres “VALEU A PENA – TUDO VALE A PENA – SE A ALMA NÃO É PEQUENA – FP” e a identificação do possuidor.

 

Ex-líbris de Manuel Pinto Leão - Abreu e Lima

Ex-líbris de Manuel José de Ferreira Pinto Leão, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1967 e gravado a buril por Isaías Pires Peixoto. É um escudo peninsular ao balão, esquartelado, com as armas de Leão, Pinto, Carvalho e Pereira, e por diferença uma brica de prata com uma estrela de seis pontas, com elmo, virol, paquife e timbre de Leão, e a identificação do possuidor.


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Domingo, 14 de Junho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA III

Ex-líbris de Manuel de Mello Corrêa

Ex-líbris de Manuel de Mello Corrêa, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1954 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo oval com armas de Melo, assente na águia do timbre.

Ex-líbris de João de Lemos Seixas Castelo Branco

Ex-líbris de João Maria de Jesus de Lemos Seixas Castelo Branco, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1961 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo esquartelado com armas de Seixas, Lacerda, Castelo Branco e Lemos, com elmo, virol, paquife, timbre de Seixas e listel com identificação do possuidor.

Ex-líbris de D. Maria Isabel Sardinha

Ex-líbris de D. Maria Isabel de Sousa e Silva Sardinha, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1961 e gravado em zincogravura. É um escudo em lisonja esquartelada com armas de Magalhães, Rebelo, Vasconcelos e Machado, com laço de amor. NOTA: este desenho foi feito inicialmente para gravação na pedra de um anel.

Ex-líbris de José Fragoso Fernandes

Ex-líbris de José Augusto Fragoso Fernandes, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1961 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo com armas e timbre de Fragoso, com elmo, virol, paquife, listel com identificação do possuidor e divisa com os dizeres «Honor et Veritas Super Omnia».

Ex-líbris do Marquês de Sabugosa

Ex-líbris de António Vasco José de Melo da Silva César de Meneses, 4.º Marquês de Sabugosa e 13.º Conde de São Lourenço, desenhado por João Paulo de Abreu e Lima em 1963 e gravado a buril por António Paes Ferreira. É um escudo partido com armas de César, Melo e Silva, com elmo, virol, paquife, coronel de duque, timbre de César e listel com identificação do possuidor.


publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 12:00
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Domingo, 7 de Junho de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA II

 

ALGUMAS OBRAS IMPRESSAS DE SUA AUTORIA:

Abreu e Lima: É João Eanes o Autor dos Painéis

É João Eanes o Autor dos Painéis de S. Vicente de Fora, Revista Gráfica n.º 4, Lisboa, 1974.

 

Abreu e Lima: PAGAIMAS

Pagaimas: Um Conto da Vida Real – Caxias, 1978, Colibri Artes Gráficas, Lisboa, 1994.

Abreu e Lima: Armas de Portugal

Armas de Portugal: Origem, Evolução, Significado, Edições Inapa, Lisboa, 1998.

Abreu e Lima: Miscelânea Crítica

Miscelânea Crítica Sobre Iluminura e Heráldica, Colibri Artes Gráficas, Lisboa, 2001.

Abreu e Lima: Casa Real Portuguesa

Casa Real Portuguesa: Alianças Matrimoniais, Mediatexto, Lisboa, 2004 [em co-autoria com Maria Alice Pereira dos Santos].

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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
RELEMBRAR JOÃO PAULO DE ABREU E LIMA NAS ARTES E NAS LETRAS
João Paulo de Abreu e Lima    Faleceu João Paulo de Abreu e Lima. Dito assim, em tom seco, choca e repulsa de sobremaneira. Leio diariamente dois jornais – ditos de referência – e em nenhum veio a mais pequena alusão ou nótula biográfica, a desmerecer das boas graças usuais – dos mortos dizei sempre bem. Ficou abandonado ao deus-dará do esquecimento.
 
    Mas Abreu e Lima foi, indubitavelmente, figura de proa na cultura portuguesa desde a década de 1950, a fazer a boca doce. Um homem de cultura invulgar e artista polifacetado de rasgo ciclópico.
 
    Basta atentar as áreas onde verteu o seu saber e proficiência: desenhador, profissional das artes gráficas, cenógrafo, medalhista, ex-librista, miniaturista, iluminista, heraldista, ensaísta, historiador e escritor.
 
    Em qualquer país civilizado esta súmula curricular seria bastante para lhe entoarem hossanas e loas de raiar o zénite. Mas não aqui, neste cantinho acabrunhado e por vezes deprimente, votado ao mais pesaroso silêncio, até na hora da sua morte.
 
    João Paulo de Abreu Rocha Oliveira e Lima[1], de seu nome completo, nasce em Lisboa a 21 de Maio de 1922, descendente por sangue duma família minhota, filho primogénito de António de Oliveira Lima[2] (1891+1958) e de D. Leonilde Gabriela de Abreu Rocha Lima (1897+1999), por via paterna neto de Joaquim António Lima (1862+1909) e de D. Ana Ermelinda Álvares de Oliveira (1854+1928), da “Casa da Botica”, na pitoresca vila e freguesia de Paredes de Coura.
 
    Nascido em berço de artista – o pai era reputadíssimo desenhador e ex-librista de mérito –, estava fadado a seguir as pisadas paternas, de quem foi condiscípulo e colaborador a partir de 1938, após terminar o ensino liceal, até à prematura morte do progenitor em Setembro de 1958, ocasião em que se lança numa carreira a solo que não lhe consentia ócios.
 
    No campo da miniatura e da filatelia, trabalhou na ilustração de inúmeros álbuns e colecções dos CTT, no tempo em que era administrador-geral o eng.º Couto dos Santos[3]. Portanto, muitos dos selos que circularam até ao início da década de 1970 têm a sua lavra.
 
    Como desenhador de ex-líbris, para além de colorir e cobrir a tinta-da-china alguns dos exemplares desenhados por seu pai, é inteiro autor de muitos dos mais conceituados ex-líbris da nossa praça, ombreando com a obra dos demais[4].
 
    No começo da década de 1950 pintou os retratos dos Duques de Palmela, D. Domingos de Sousa e Holstein-Beck (1897+1969) e D. Maria do Carmo Pinheiro de Melo (1897+1986), que os filhos deste aristocrata ofereceram para assinalar o fim da missão paterna como embaixador em Londres[5].
 
    No campo das actividades gráficas produz o desdobrável do Turismo de Mafra, os cartazes para assinalar os 750 anos do foral de Alter do Chão (1982), do Simpósio Luso-Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental (1984), das Jornadas Técnicas da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos e do Encontro Nacional dos Distribuidores de Água (1986), para além de outras dezenas de trabalhos.
 
    No âmbito da cenografia, concebeu os adereços e as decorações dos filmes “Henrique, O Navegador” (1960) e “Portugal, Roteiro do Sol” (1961), ambos de João Mendes e Filipe de Solms. Já agora, à mão de semear, a película “Henrique, O Navegador”, produzida no âmbito do programa das Comemorações do 5.º Centenário da Morte do Infante D. Henrique, conquistou o Prémio Paz dos Reis do ano de 1960, certamente também devido ao excelente contributo de Abreu e Lima. Faria igualmente os cenários para as exposições de Portugal em Gand, Toronto e Bruxelas, etc.
 
    Iluminador de méritos espantosos, somente comparável ao superior talento de seu pai, João Paulo de Abreu e Lima executou trabalhos admiráveis sobre pergaminho iluminado a cores e oiro, como a iluminura de homenagem ao general D. Miguel Pereira Coutinho (1952)[6], a árvore genealógica de Pedro Álvares Cabral, a genealogia de D. Sebastião Calheiros de Lancastre (1959), a iluminura dos vínculos da Casa de Bertiandos, em Ponte de Lima, etc.
 
    Meticuloso, com notáveis qualidades de trabalho, organizou inúmeras exposições. Pelas dimensões cabe aqui realçar que concebeu e montou em 1971 a grandiosa mostra «Pintura dos Mestres do Sardoal e de Abrantes», uma verdadeira retrospectiva sobre a arte pictórica portuguesa do século XVI, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e Câmara Municipal de Abrantes.
 
    Organizou e dirigiu também a grande exposição nacional comemorativa do «V Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”», sob patrocínio da Biblioteca Nacional de Lisboa, em 1972.
 
    Venceu, com inteiro mérito, o concurso público para criar o logotipo comemorativo do «Centenário do Nascimento de Alfredo da Silva», realizado em 1971 pela CUF, e criou ainda o logotipo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
 
    No âmbito da medalhística desenhou, em 1971, a medalha comemorativa da «Inauguração da Doca Alfredo da Silva» da Lisnave – a maior doca seca do Mundo –, a medalha comemorativa da inauguração do estaleiro naval de São Vicente, Cabo Verde, e a medalha para assinalar a inauguração do Estaleiro de Reparação Naval de Jeddah, na Arábia Saudita (1993).
 
    Neste campo, afirmação da sua verve artística, produziu e desenhou as medalhas evocativas da Casa do Minho, do «Centenário da Morte de Alexandre Herculano» (1977), do Estaleiro Naval do Arsenal de Alfeite (1987), do centenário da Litografia de Portugal (1993), do Banco de Portugal, da Companhia de Seguros Bonança, do Grémio Literário, culminando com a série de 12 medalhas com a esfinge e brasões de armas de navegadores portugueses.
 
    Foi, ainda, autor do monumento que ornamenta a entrada do citado estaleiro naval de Jeddah, em colaboração com o escultor Domingos Soares Branco.
 
    A Heráldica foi, desde sempre, a sua paixão. A ela dedicou o melhor do seu saber, tanto a nível do desenho, da formulação teórica e do estudo histórico. Nesta ciência foi águia no entendimento, onde o facho luminoso do seu génio mais ardia e mais deslumbrava, os outros a choutar no seu rasto.
 
    Em 1965 concebeu e desenhou as bandeiras das vilas e cidades das Províncias Ultramarinas, logo reunidas em dois volumes do «Armorial do Ultramar Português»[7], em co-autoria com Franz de Almeida Langhans.
 
    Como causava maravilhas o seu traço, fazia doutrina, por convite do general Câmara Pina e do general Avelino Barreira Antunes, criou em 1966 o Gabinete de Heráldica Militar na dependência do Chefe do Estado-Maior do Exército, com a missão de ordenar a Heráldica e a Vexilologia do Exército. Fruto do seu trabalho foram aprovadas as “Normas de Heráldica do Exército”[8], e da sua prancheta saíram os protótipos para futura concessão de armas, base da moderna brasonária militar.
 
    Foi colaborador activíssimo do Gabinete de Heráldica do Trabalho da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho para quem desenhou e iluminou onze admiráveis pergaminhos a cores e oiro, com as armas das corporações da Lavoura, Comércio, Indústria, Imprensa e Artes Gráficas, Crédito e Seguros, Transportes e Turismo, Pescas e Conservas, Espectáculos, Desportos, Saúde e Assistência e Ciências, Artes e Letras.
 
    A minha retina vê João Paulo Abreu e Lima como homem extraordinário e complexo, visceralmente conservador, monárquico e religioso. Cáustico vivo da actual partidocracia e democracia, uma corja de malandrins no cevadouro do orçamento.
 
    Crente nas virtudes do Estado Novo, da grandiosidade do Império, militou na facção ultra-montana do general Santos Costa, pomo rubro donde nunca se arredou um milímetro. Fiel à matriz ideológica, jamais navega na maré das conveniências, entrou a conspirar contra a III República a 28 de Setembro e 11 de Março, vai posto a ferros algum tempo na Prisão de Caxias.
 
    Em 1967 arrebenta a guerra civil na Nigéria, é proclamada a efémera República do Biafra. Portugal enfileira no rol dos que suportam a secessão[9], sendo até uma das principais bases logísticas do estado rebelde. Abreu e Lima vai fazer os desenhos para as notas do Banco do Biafra, em 1968, cuja tonalidade é similar às notas do Banco de Portugal de então.
 
    No Verão de 1970 desenharia as maquetas da cidade de Conacri[10] que serviram de referência para a força especial envolvida na Operação Mar Verde[11] estudar os alvos que iriam atacar.
 
    Simultaneamente ao natural desenvolvimento da sua longuíssima carreira artística e de autor, Abreu e Lima labutou em regime de avença ou consultadoria com a Repartição de Turismo do Secretariado Nacional de Informação, com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e com as Edições Inapa, aqui quando já era quase octogenário, a remoçar.
 
    A via da carreira literária entrou tardiamente na sua vida, fruto dum processo de maturação, a obra a medrar. Autodidacta, com amplos conhecimentos de paleografia, arranhava latim, foi sempre um estudioso aplicado, cujo poder de clareza, dedução, fluência e rigor absoluto do raciocínio fizeram dele um prolixo autor, representação viva da sua visão do mundo, com pensamento cintilante.
 
    Há alguns anos entrou para a Academia Portuguesa da História, uma lança de Aljubarrota, aragem que ramalhava a sua meritória obra, preito merecido. Um justíssimo merecimento velho como o mundo.
 
    A sua casa em Lisboa era uma monumental biblioteca. Milhares de livros, manuscritos, fólios e grossos cartapácios a carrejar as estantes, trepam as paredes de lés-a-lés, sala aqui, divisão acolá.
 
    Fumador inveterado, dedos queimados pelo permanente cigarro, era um gosto ouvi-lo discretear sobre os temas que dominava em fulgurante paixão, a Heráldica, os arautos, os ex-líbris, a História, a iluminura, a pintura, os painéis ditos de São Vicente.
 
    Neste estado de coisas do arco-da-velha, o que impera mais é evanescente fumo dos ídolos de pés de barro, a glória do efémero em delírios das grandezas, os bacocos promovidos ao estatuto de figuras públicas de crânio pequeno, donde não salta uma faísca de luz, secos como a palha. Numa sociedade de sandice, tempo de esfola-gatos, mata-cães, as pessoas providas de real valia não têm cabimento, ao que parece.
 
    Abreu e Lima, falecido a 8 de Maio de 2009, foi criador de inexcedível qualidade, de primeira plana, personalidade maior das artes e das letras, dando um poderoso contributo à vida intelectual portuguesa. É preciso que se assinale o seu mérito a letras de ouro, da mesma maneira que ele iluminava os pergaminhos.
 
Livros, textos e artigos de João Paulo de Abreu e Lima:
 
Ex-Líbris desenhados por João Paulo de Abreu e Lima:

Logotipos desenhados por João Paulo de Abreu e Lima:

  • Centenário do nascimento de Alfredo da Silva (1971);
  • Universidade Livre de Lisboa (1976);
  • Universidade Internacional (1986);
  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo (1990);
  • Europarque (1995).

     

 


[1] Usou desde sempre o nome profissional e literário de João Paulo de Abreu e Lima.
[2] Mestre António de Oliveira Lima, natural de Paredes de Coura, foi reputado desenhador, ex-líbrista, iluminista, pintor, fotógrafo amador, miniaturista, ilustrador de livros e poeta.
[3] Luís Albuquerque Couto dos Santos, natural do Porto, onde nasceu em 1896, formado em Engenharia, foi chefe de Gabinete do Ministro do Comércio e Comunicações, vogal do Conselho Superior dos Caminhos-de-Ferro, vogal do Conselho Superior de Obras Públicas e Administrador-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones (1933-1965).
[4] O maior desenhador de ex-líbris foi, indiscutivelmente, seu pai António Lima. Depois dele são reconhecidos méritos a António Paes Ferreira, Conde de Paraty, Segismundo Pinto, José da Rocha Pérez, José Bernard Guedes, Eduardo Esperança, João Ricardo Silva, Luís Ferros, Aulo-Gélio Godinho, e, claro, Abreu e Lima.
[5] O Duque de Palmela foi embaixador de Portugal na Grã-Bretanha, nomeado por decreto de 20 de Outubro de 1943 e terminou tais funções em 21 de Dezembro de 1949.
[6] Esta iluminura, em co-autoria com seu pai António Lima, foi concebida para homenagear o general Pereira Coutinho pelo fim da sua comissão de serviço como comandante do Governo Militar de Lisboa, cargo que exerceu entre Março de 1948 e Dezembro de 1952.
[7] Armorial do Ultramar Português, Edição Comemorativa do XL Aniversário da Revolução Nacional, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1966.
[8] Por portaria n.º 24107, de 3 de Julho de 1969.
[9] Para além de Portugal, a República do Biafra foi apoiada e suportada, em graus diversos, pelo Gabão, Costa do Marfim, França, Rodésia, África do Sul, Vaticano e Israel.
[10] Abreu e Lima fez a maqueta da cidade de Conacri a partir de mapas, fotografias e informações dos serviços secretos portugueses e sul-africanos.
[11] A 22 de Novembro de 1970 uma força comandada pelo capitão-tenente Guilherme de Alpoim Calvão invadiu e atacou a cidade capital da vizinha Guiné-Conacri, visando derrubar e eliminar o presidente Sekou Touré, prender ou eliminar Amílcar Cabral, aniquilar as lanchas do PAIGC, destruir os caças MIG e libertar os militares portugueses ali presos. A Operação Mar Verde começou a ser preparada no Verão de 1969.

 


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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009
UM HERÓI MINHOTO: O TENENTE-GENERAL CONDE DAS ANTAS
General Francisco Xavier da Silva Pereira, 1.º Conde das Antas    Faz hoje 157 anos que morreu uma das figuras maiores do conturbado século XIX, pese embora um certo ostracismo que injustamente se abateu sobre essa personagem, condenando-a com um manto de ignorância ao vestíbulo do esquecimento.
 
    Francisco Xavier da Silva Pereira nasceu na praça-forte de Valença do Minho, a 14 de Março de 1793, filho primogénito do coronel Francisco Xavier da Silva Pereira (1762+1824) e de D. Antónia Josefa de Abreu Sequeira.
 
    Seguiu a carreira das armas, influenciado pela figura paterna, mas também levado pela exaltação patriótica e juvenil, a vontade de combater as tropas de Junot, invasor mafarrico alapado, a devorar parcelas de Portugal. Afoitou-se, como a Nação ousou, afrontar a casta dos super-guerreiros de Napoleão.
 
    Assim, aos 15 anos, borbulhas no rosto decidido, ainda arrastava os cueiros pelos bancos de escola, alistou-se a 20 de Junho de 1808 como aspirante do Batalhão de Caçadores do Porto, comandado pelo seu próprio pai, então graduado em capitão, enquanto a Pátria exaltada de nacionalismo se revoltava contra as tropelias dos franceses.
 
    A 14 de Setembro de 1808 ganhou as galonas de alferes de Infantaria e ingressou no quadro do 1.º Batalhão da Leal Legião Lusitana, sendo promovido a tenente por decreto de 3 de Novembro de 1808[1] e colocado no Batalhão de Caçadores n.º 7. Em pouco tempo, em salto de lebre, galga três degraus na escala militar, ascensão vertiginosa e ímpar.
 
    De sabre em punho e inaudita coragem no peito, em cadência incessante, nunca trôpego de cansaço, batalhou nas batalhas do Buçaco (Setembro de 1810), Badajoz (Maio de 1811), Albuera (Maio de 1811), Salamanca (Julho de 1812), Vitória (Junho de 1813), Nive (Novembro de 1813), Nivelle (Novembro de 1813), Orthez (Fevereiro de 1814), Bordéus (Março de 1814) e Toulouse (Abril de 1814). Êxitos sucessivos de batalha em batalha.
 
    Fez-se homem por entre veredas caprinas, cheiro de pólvora, rios de sangue e tiros de canhão, naquele punhado de homens da divisão anglo-hispano-portuguesa que escorraçou os franceses a pontapé península fora até terras gaulesas, escrevendo uma página de ouro, ao esmigalhar a águia imperial napoleónica.
 
    Por actos de bravura foi promovido à patente de capitão, a 11 de Novembro de 1811, por proposta do marechal William Beresford, Visconde de Beresford e Conde de Trancoso. Em 1814 foi galardoado com a Medalha da Guerra Peninsular.
 
    Homem do seu tempo, acompanhou os ventos de mudança que a História soprava em direitura à modernidade, fez-se jacobino, “vintista”, no fervor da adesão ao liberalismo, envolveu-se na política até ao pescoço, teve quezílias de truz com o façanhudo Conde Amarante, quando este arvorou o pendão da contra-revolução das falanges absolutistas.
 
    Integrou a coluna militar enviada a Trás-os-Montes para meter o Conde de Amarante na linha, esteve na Batalha de Santa Bárbara (13 de Março de 1823) e na Batalha da Ponte de Amarante (25 de Março de 1823), o primeiro arremedo duma fratricida guerra que iria conhecer futuros e mais violentos episódios.
 
    Em consequência da “Vilafrancada”, o País capitulara, tornara a dar «vivas ao Rei absoluto, nosso Senhor», foi afastado da caserna militar em Dezembro de 1823. O poviléu tinha então entranhada aversão as estas coisas do Constitucionalismo.
 
    Esperou, a conspirar na sombra, não era de tibiezas, e, em Abril de 1826, ei-lo reintegrado na vida marcial, promovido ao posto de major em 28 de Dezembro de 1826 e colocado no Batalhão de Caçadores 12.
 
    Aderiu à revolução liberal do Porto, amotinada a 16 de Maio de 1828, em alta grita a exigir o retorno da Carta Constitucional, enquanto em Lisboa a deputação do Povo e da Nobreza suplicava ao Infante Dom Miguel que cingisse a coroa real de monarca absoluto, uma fase aguda da crise político-institucional.
 
   O major Silva Pereira era, já, um dos mais afamados cabos-de-guerra da trupe constitucional. Como homem de acção, para além de “vivas à Carta”, entrou naquela atroz pandemia que foi mais esta etapa da malvada guerra civil, combateu nos combates da Cruz de Morouços (24 de Junho de 1828) e da Ponte do Marnel (28 de Junho de 1828), a conhecer o travo da derrota, e ala para o exílio no vapor Belfast, adejar adeuses, o primeiro milho é dos pardais.
 
    Em Agosto de 1828 desembarca na Madeira para reforçar a guarnição liberal e impedir a reconquista da ilha pela realeza miguelista, novo desaire, capitulação, nova fuga a 22 de Agosto rumo às ilhas Canárias, daí abala para Inglaterra.   
 
    Em Janeiro de 1829 milita na infrutífera expedição de Saldanha à ilha Terceira. Ficou a ruminar, três derrotas seguidas eram demais, para tamanho ego e denodo. Silva Pereira dirige-se então, em Setembro, a Ostende, Bélgica, a recrutar mercenários e organizar os emigrados liberais para um Batalhão de Caçadores.
 
    A 20 de Janeiro de 1830 desembarca, enfim, na ilha Terceira, uma lança em África. Participa, como comandante dum batalhão, na conquista das demais ilhas açorianas para a causa do ex-imperador do Brasil, uma após outra caíram S. Jorge (Maio de 1831), Faial, Flores, Corvo e Graciosa (Junho de 1831) e S. Miguel (Agosto de 1831).
 
    Em 8 de Julho de 1832 desembarca, sem a menor oposição, em Arenosa de Pampelido (Matosinhos), no ondular manso da Praia dos Ladrões, a condizer ou insultuoso, conforme o ponto de vista do observador destas migalhas. Ao saberam o nome do areal, credo, canhoto, arrepelaram-se, toca a mistificar e modificar a designação para Praia da Memória. A 9 de Julho, o Duque de Bragança, Silva Pereira e o Exército Libertador entraram no Porto, todos pimpões, recebidos com cautelas pela populaça, militante do absolutismo apostólico.
 
    No celebérrimo Cerco do Porto, o nosso concidadão flameja mais uma mão-cheia de actos de valentia e os galões de tenente-coronel, a 6 de Agosto de 1832, alcandorado logo de supetão a coronel, em 21 de Novembro de 1832[2], mais o grau de oficial da Ordem Militar da Torre e Espada e de cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
 
    O País gemia por culpas políticas, a fúria canibalesca da discórdia prosseguia de má catadura, pais contra filhos, irmãos desavindos, todos contra todos. Mas a sua coroa de glória ainda não estava atingida.
 
    Quando os miguelistas tentaram retomar a cidade nortenha, o coronel Silva Pereira, a 24 de Março de 1833, em perigo esforçado de vida, «atacou intrepidamente a posição do monte das Antas», obrigando a força contrária a bater em retirada, rechaçando energicamente os sucessivos contra-ataques do inimigo. Este feito heróico vai dar origem ao seu futuro título nobiliárquico.
 
    Esteve na expedição para conquista do Algarve, em Junho de 1833, na tomada de Lisboa, a 24 de Julho de 1833 (a origem do nome da famosa artéria lisboeta, a romper em festejos) e nos recontros da linha de Lisboa (Setembro e Outubro de 1833), a tenaz aperta o gorgomilo do Rei Absoluto. Como o exército realista era já uma coisa bisonha, destroçado, deu-lhe caça e peleja por todos os recantos, sempre em ardor, em cargas enérgicas nos combates de Torres Novas (25 de Janeiro de 1834) e de Pernes (30 de Janeiro).
 
    A causa dos áulicos de Dom Miguel entrava em vasca agonia. O coronel Silva Pereira foi agraciado com a grã-cruz da Antiga e Mui Nobre Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem Militar de S. Bento de Avis. Ascende ao generalato ao ser graduado em brigadeiro a 24 de Julho de 1834, é colocado como governador da importantíssima praça de Elvas. Já abonara provas de excepcional valia.
 
    Em Setembro de 1834 deram-lhe o comando da 3.ª Brigada do Exército e em Agosto de 1835 foi nomeado governador da praça de Setúbal em acumulação com a chefia daquela brigada. Por decreto régio de 17 de Setembro de 1835 é feito 1.º Barão das Antas. Em Março de 1836 foi co-fundador da Sociedade Patriótica Lisbonense.
 
     A vizinha Espanha entra em querela dinástica e na luta político-militar, um barril de pólvora que a decénios abrasava a Europa. Para apoiar a causa constitucional de Isabel II, Rainha de Espanha pela graça de Deus, contra as pretensões de Carlos V, proclamado rei tradicionalista de Espanha, o Governo Português envia em Outubro de 1835 uma Divisão Auxiliar a Espanha.
 
    Inicialmente o brigadeiro Barão das Antas vai somente no comando da 1.ª coluna, a fim de auxiliar a guerra dos liberais espanhóis contra os “carlistas”, ele que já escrevera páginas homéricas de heroísmo. Ascende depois a comandante-chefe de toda a divisão expedicionária a 12 de Outubro de 1836.
 
    O bravo militar cobriu-se de glória, mais uma vez, praticando actos de audácia nos campos de batalha em Janeiro, Março e Junho de 1836 e em Maio e Julho de 1837, e também como governador do Reino de Navarra e comandante-chefe das Vascongadas. Nesse meio tempo dão-lhe o título de 1.º Visconde das Antas, por decreto de 13 de Outubro de 1836[3].
 
    Entrementes a chama da guerra civil alteia a fogueira em Portugal com a Revolta dos Marechais no intuito de impor de novo a Carta Constitucional de 1826 à rainha Dona Maria II, em Julho de 1837. O País arde em batalhas, prisões e vilanias, golpes e contra-golpes, doía-se da anarquia que fazia desmaios nos governantes do Reino, em todo o lado se acaudilhava gente para a fera peleja da questão constitucional entre “Cartistas” e “Constituintes”.
 
    De afogueada o visconde é chamado a Portugal, ele que era antigo cartista, mas jurara a Constituição de 1822 imposta pela Revolução de Setembro. Lá vem a mata-cavalos, defensor do Paço e da legalidade. Entra por Almeida, corre por Ceca e Meca, Lamego, Porto e derrota por completo as tropas do Barão de Leiria na Batalha de Ruivães (18 de Setembro de 1837), persegue a hoste do marechal Saldanha, impõe a Convenção de Chaves que marcou a derrota das forças rebeldes.
 
    Vamos abreviar, a vida e currículo dum varão deste calibre somente caberia num volumoso tratado. Recebe promoções em cornucópia, galardoado pelo Governo espanhol com a cruz da Ordem de S. Fernando e a grã-cruz da Ordem de Carlos III, promovido a marechal-de-campo graduado (7 de Setembro de 1837), comandante das tropas do Norte (1837), trepou a marechal-de-campo (2 de Outubro de 1837), elevado à Grandeza do Reino como 1.º Conde das Antas (decreto de 16 de Maio de 1838[4]), senador da Nação (legislaturas de 1838-1842), vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar (1838), inspector-geral da Arma de Infantaria (1840), Par do Reino (Carta Régia de 3 de Maio de 1842), tenente-general (19 de Julho de 1842), governador-geral da Índia (1842-1843), vogal da Comissão de Guerra da Câmara dos Pares (1845-1846), comandante da 1.ª Divisão Militar (1846), comandante militar do Porto e das Tropas do Norte (Agosto de 1846), presidente e comandante-chefe da Junta Provisória do Governo Supremo do Reino (1846-1847), vogal da Comissão Especial para a Nomeação e Sucessão no Pariato do Reino (1850), etc.
 
    Nesta imensa sucessão de honrarias, dois destaques. Foi nomeado 89.º governador-geral do Estado da Índia em 18 de Julho de 1842, tomou posse a 19 de Setembro de 1842 e renunciou ao cargo em 25 de Abril de 1843, alegando razões de saúde.
 
    Em Março de 1846 deflagrou no Minho a Revolução da Maria da Fonte, um levantamento da arraia-miúda contra as determinações sanitárias e fiscais, todos contra as leis novas. O tenente-general Conde das Antas, que era comandante-chefe das Tropas do Norte e figura de maior relevo da região, assumiu (6 de Outubro de 1846) a presidência da Junta Provisória do Governo Supremo do Reino, uma espécie de Presidente do Conselho, que se oponha ao Governo instalado em Lisboa, e o respectivo comando-chefe das Forças Armadas.
 
    Na quinta década de vida, a saúde alquebrada em cacos, viu-se envolvido em mais uma campanha. Marchou com as suas tropas para Coimbra e Santarém, visando conquistar Lisboa. Após várias incidências e marchas militares, recuou até ao Porto sem conseguir esse intento. Andou por diversas escaramuças pelo Norte, de somenos importância, e o País andava numa confusão enorme, a insurreição rebentava com renovada sanha, era a Guerra Civil da Patuleia.
 
    Em Maio de 1847 organizou e pôs-se à frente duma expedição naval para a conquista de Lisboa, porém quando a frota deixava a barra do Douro[5], foi aprisionado pela esquadra inglesa (31 de Maio de 1847), que viera em socorro da rainha Dona Maria II e do Governo do marechal Duque de Saldanha, numa naquelas imensas intervenções estrangeiras que ensombraram e envergonharam o século XIX português.
 
    O Conde das Antas, general patuleia, encarcerado na torre de S. Julião da Barra, protestava das condições humilhantes e deploráveis, donde tão-somente foi libertado após a assinatura da Convenção de Gramido (29 de Junho de 1847) que pôs termo àquela desordem universal e à guerra civil. Em 1850, desgostoso e saturado até à náusea, abandonou a ribalta e a política, tendo publicado ainda o Discurso Pronunciado na Sessão da Câmara dos Dignos Deputados em 15 de Fevereiro de 1848.
 
    Entrado nos anos, cãs na farta cabeleira, barbas longuíssimas raiadas de alva até á quilha do peito, casou-se aos 52 anos, a 22 de Julho de 1845, com D. Maria Teotónia da Guerra e Sousa de Rávago Santistevan, filha herdeira de Gualdino José da Guerra e Sousa e de D. Maria Bernarda Josefa Fagundo de Rávago y Santistevan, de quem nasceram dois filhos, Francisco Xavier (1849+1887) e Fernando Xavier (1851+1895), sucessivamente 2.º e 3.º Condes das Antas.
 
    Faleceu em Lisboa, vitimado por uma lesão cardíaca, a 20 de Maio de 1852[6]. O representante genealógico do título e da família é o seu trineto António Maria de Lourdes de Lancastre de Melo e Castro, 5.º Conde das Antas e sucessor presuntivo no condado da Lousã e viscondado de Pernes.
 
    Não sei o que menos dizer para tornar a nótula biográfica mais curta, mas falta aditar que os seus irmãos formaram uma plêiade distintíssima. José Joaquim da Silva Pereira (1795+1865), nascido em Valença, foi marechal-de-campo do Exército, deputado da Nação e governador civil de Aveiro. António Júlio (1797+1852), natural de Valença, foi bacharel em Matemática, comendador da Ordem de Cristo e deputado da Nação. Joaquim Narciso (1799+1873), nasceu em Valença, foi general de Brigada do Exército e deputado da Nação. Frederico Guilherme (1806+1871), natural de Monção, foi bacharel formado em Direito, juiz do Tribunal da Relação do Porto, juiz presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, grão-mestre da Maçonaria, fidalgo da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, deputado da Nação, ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos e ministro interino da Fazenda. O caçula Adriano Augusto (1808+1864), nascido em Viana do Castelo, foi escrivão de Direito.
 
    No dizer abalizado dum contemporâneo, o Conde das Antas foi «dos mais valorosos cabos do moderno Exército Português», com a excelsa «reputação de soldado intrépido, general organizador», a que aliava «o condão de saber entusiasmar o soldado nas ocasiões perigosas», coroado «pelo exemplo do arrojo e sangue frio» com «que sempre guiava os combates». E acrescentava, eloquente, a «alta posição social a que chegou e a grandeza e renome que legou» ficou a dever-se, puramente, «a seus feitos militares»[7].
 
    Figura maior do seu tempo, o general Conde das Antas ombreia com a elite militar de então, encarnada pelo marechal Duque de Palmela (1781+1850), marechal Duque de Saldanha (1790+1876), marechal Duque da Terceira (1792+1869) e general Marquês de Sá da Bandeira (1795+1876), triunfadores que assinalaram o século XIX a ferro e fogo, corifeus do liberalismo cheios de ímpetos revolucionários, impávidos nos transes mais tormentosos, impulsivos no labirinto mais confuso, a marcar o progresso na nação. O avanço da civilização foi feito com homens desta têmpera, picados pelo génio.
 
Bibliografia:
 
Costa, Coronel António Pereira da, Os Generais do Exército Português: Das Invasões Francesas à Queda da Monarquia, II volume, I tomo, Lisboa, 2005;
Instituto Português de Heráldica, Anuário da Nobreza de Portugal 1985, III volume, tomo I, Edição do IPH, Lisboa, 1985;
Martins, Oliveira, História de Portugal, 16.ª edição, Guimarães Editores, Lisboa, 1972;
Martins, Rocha, História de Portugal, 2.ª edição, Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1930;
Mónica, Maria Filomena, Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, volume III, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2006;
Pereira, António Manuel, Governantes de Portugal Desde 1820 Até ao Dr. Salazar, Manuel Barreira Editor, Porto, 1959;
Pinto, Albano da Silveira, Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal, tomo I, Empresa Editora de Francisco Artur da Silva, Lisboa, 1883;
Selvagem, Capitão Carlos, Portugal Militar: Compêndio de História Militar e Naval de Portugal, Imprensa Nacional de Lisboa, Lisboa, 1931;
Zúquete, Afonso Eduardo Martins, Nobreza de Portugal e do Brasil, volume II, Editorial Enciclopédia, Lisboa, 1960;
Zúquete, Afonso, Tratado de Todos os Vice-Reis e Governadores da Índia, Editorial Enciclopédia, Lisboa, 1962.

 


[1] Promovido a tenente a 3 de Novembro de 1809, segundo dados do Arquivo Histórico Parlamentar.
[2] Promovido a coronel a 25 de Julho de 1833, segundo dados do Arquivo Histórico Parlamentar.
[3] A 10 de Outubro de 1836, garante o Arquivo Histórico Parlamentar. 
[4] Conde das Antas a 4 de Abril de 1838, segundo dados do Arquivo Histórico Parlamentar.
[5] Os historiadores não se entendem sobre onde foi capturada a frota do general patuleia. À «saída do Porto», assegura Daniel Ribeiro Alves (Dicionário Biográfico Parlamentar, volume III, p. 223); «na barra da capital», garante o coronel Pereira da Costa (op. cit., p. 291); para Carlos Selvagem foi «no mar alto» (op. cit., p. 576).
[6] Ninguém morre três vezes, porém, para Silveira Pinto o conde faleceu a 10 de Maio e o Dicionário Biográfico Parlamentar assinala o óbito a 19 de Maio.
[7] Silveira Pinto, op. cit., pp. 115 e 116.

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Quinta-feira, 14 de Maio de 2009
UM MINHOTO NA EDIFICAÇÃO DO CRISTO REI
 
    Embora não pareça, devido ao condicionalismo geográfico patente, o assunto está nitidamente dentro da área de apetência e vocação em exaltar o Minho e o povo minhoto, cruz que carrego de gosto e peito pelicano aberto, pois falar destes temas é um bem de alma, uma semente que bóia nos céus.
 
    Faz agora cinquenta anos que em Maio de 1959 foi inaugurado o miradouro de Cristo Rei, em Almada, erigido para abençoar a paz. Apesar das muitas obras de reclassificação que sofreu para o transformar no Santuário de Cristo Rei e capela de Nossa Senhora da Paz, o monumento mantém as mesmas características iniciais.
 
    A história é consabida, a inspiração nítida no Cristo Redentor do Corcovado (Brasil), o voto secreto de 1940, a subscrição lançada em 1946, o lançamento da primeira pedra em Dezembro de 1949, o romperam as obras em Abril de 1954. Na sua concepção trabalharam mestres reputados, a fina flor.
 
    O projecto do monumento é de autoria do arquitecto António Lino e do eng.º D. Francisco de Mello e Castro, mestre Francisco Franco concebeu a imagem de Cristo Rei, enquanto o mestre Leopoldo de Almeida idealizou a imagem da Senhora da Paz, e ainda outra personagem, de quem dois saltos à frente falaremos.
 
    Ora, estas coisas não se fazem sem um modelo global da estátua e monumento, pois cada artista anteriormente citado trabalhou tão-somente na sua área de competência. É preciso juntar os planos todos e fazer uma maqueta definitiva à escala, que dê uma ideia do conjunto e desenvolver o projecto.
 
    Muita gentinha não saberá, decerto, quem terá sido responsável pela maqueta, mas adianto desde já que foi um minhoto, embora primeiramente se tenha pensado acudir-se aos serviços da empresa francesa de Paul Landowsky. Em boa hora virou o cata-vento e mandou a Divina Providência buscar amanho em solo pátrio.
 
    Manuel Renda, de seu nome, nasceu a 3 de Fevereiro de 1912, em Vilar de Mouros, onde a água é uma ave-maria puríssima, ribeirinha freguesia do concelho de Caminha. Prendado de artes, enveredou pela carreira de modelador, a granjear o mais reputado prestigio pela sua imensa valia, competência e saber, um mestre entre pares, exemplo de amor ao trabalho e escrupuloso desempenho da profissão.
 
   Colaborou em diversas exposições nacionais e internacionais, com especial relevo para a participação na Exposição do Mundo Português de 1940 e em outros empreendimentos levados a cabo pelo Ministério das Obras Públicas nas décadas de 40 a 60 da passada centúria, um vaganau de anos a fazer obra de truz.
 
    Em 1950 o nosso conterrâneo foi chamado para modelar a maqueta do Cristo Rei, tendo feito um modelo à escala com 28 metros de altura, uma complexa obra. Mas a sua intervenção não se quedou por aqui, cabendo-lhe ainda a originalidade dos moldes, e, como o monumento tinha a altura total de 109 metros, foi ele mesmo que fez o assentamento no próprio local, a partir dos 82 metros.
 
    Dirigiu os trabalhos, transfigurado, meticuloso, resolvendo os problemas técnicos da resistência ao vento, dada a construção em altura, reforçando o interior com septos horizontais e verticais, a resolver tudo numa volta de mão, olhos a esfuzilar centelhas de génio, tu cá, tu lá, com os grandes figurões da engenharia e arquitectura.
 
    Tecnicamente é da sua responsabilidade a quase totalidade do monumento, na sua porção mais alta, que é composto por um pórtico de cerca de 75 metros, uma placa superior e a estátua monolítica, por tal forma ali se assinalou. Ficou a primeira maravilha do século XX português, não há no género templo mais formoso.
 
    O sítio do santuário na Internet não lhe faz qualquer alusão, porém a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (volume XXXVIII, 1958, p. 125) faz-lhe inteira justiça a lembrar-nos em tira-teimas que «os seus principais autores foram: António Lino, arquitecto; Francisco Franco, escultor; D. Francisco de Mello e Castro, arquitecto e Manuel Renda, modelador».
 
    Tive o profundo prazer de conhecer o “Senhor Renda” no início da década de 1990, aos oitenta anos, que por mera carolice e supina dedicação tomava conta do campo de tiro da aldeia natal, um amor de tigre pela terra, enquanto os labrostes praticavam tiro aos pratos por entre a flor da tojeira, mesmo que ferre a chover.
 
   Era um homem de trato finíssimo, gentil e perfeito cavalheiro, uma graça infinita pela sua profunda humildade, só ao alcance dos serenos de alma, fazia o favor de ser meu amigo. Só uns anos depois soube, fruto duma investigação, aquela criatura atenciosa, já no inverno fosco da vida, fora uma das figuras maiores da história das Obras Públicas portuguesas, tal era a sua modéstia, a merecer preitos de admiração e simpatia! Abri a boca de espanto, nenhum sentimento de vaidade.
 
    O talento e a vasta ciência do seu mester o tornaram credor do máximo apreço e credibilidade dos conterrâneos. Decaiu na obscura memória dos trengos, o que repugna as leis da consciência, está no meu coração. Recordá-lo hoje é da mais elementar justiça.

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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 14:59
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Domingo, 10 de Maio de 2009
DICIONÁRIO DE FALARES DO MINHO XII

 

ACARREAR, verbo transitivo. Reunir e conduzir o gado bovino para a corte.
 
ACARREDAR, verbo transitivo. Arrecadar [Por metátese].
 
ACARREJADA, substantivo feminino. Acto de acarrejar, feito por várias pessoas. Termo de Arcos de Valvdevez.
 
ACARREJAR, verbo transitivo. Transportar cargas às costas, ou à cabeça; acarretar.
 
ACARTAMENTO, substantivo masculino. Acarretamento.
 
ACARTAR, verbo transitivo. Acarretar. [Forma sincopada].
 
ACARVALHADO, adjectivo. Carvalho que tem os galhos cortados.
 
ACARVALHAR, verbo transitivo. Cortar pela primeira vez as galhas ao carvalho.
 
ACASIÃO, substantivo feminino. Ocasião. [Aglutinação do artigo feminino, provocada pela gutural como reforço fonético].
 
ACATIMAR, verbo transitivo. Acadimar; habituar. Termo de Arcos de Valdevez.
 
ACATRINAR-SE, verbo. Embebedar-se. Termo de Arcos de Valdevez.
 
ACAUDEÇAR, verbo transitivo. Agasalhar.

Grupo Folcórico Camponês de Bico



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009
MEDICINA POPULAR DO ALTO MINHO I

 

Anemia – Em Paredes de Coura, quando as crianças ou adultos sofriam de “fraqueza” ou de “sangue fraco”, davam-se as famosas gemadas feitas com gemas de ovo, açúcar amarelo e vinho fino – hoje designado por Vinho do Porto – queimado. Por vezes era colocado um prego nessa infusão a marinar uns dias. Para as crianças mais pequenas o vinho fino era substituído por leite muito quente.
 
Bexigas – Para as bexigas não passarem para a garganta do doente, deve-se colocar-lhe ao pescoço um cordão de ouro.
 
Bronquite – Quem sofrer de bronquite, deve inalar o ácido da cebola, isto é, estar ao lado de quem estiver a “petar” – descascar e cortar – cebolas, cuja acção de lacrimejar fará dilatar os pulmões.
 
Caspa – Em Ponte de Lima, para curar a caspa, mas também para engrossar o cabelo fraco e dar-lhe brilho intenso, lava-se com o cozimento da erva tormentelo, nome vulgar dum subarbusto da família das Labiadas, e ao mesmo tempo declama-se:
Menina da nossa terra,
Com que lavais o cabelo?
Com umas ervas do monte
Que se chamam tormentelo.