Parece que os Jogos Olímpicos de Pequim estão a ser disputados, afinal, em Beijing, para suprema confusão das mentes ocidentais.
Alguns órgãos de comunicação social, em especial do outro lado do Atlântico, tanto no Brasil como nos Estados Unidos dão preferência à última forma, que também encontra adeptos em Portugal.
Na realidade, não se trata duma alteração de nome, como tivemos no passado, com a transmutação de Pérsia para Irão, Sião e Tailândia, Leninegrado e São Petersburgo, e essa ainda mais berrante ao rebaptizar-se a Birmânia – que já foi Burma – em Myanmar.
Pequim tem raízes fundíssimas na língua e literatura portuguesa, nas páginas dos textos clássicos da centúria de quinhentos, na medida em que surge assim grafada e escrita nas obras de Fernão Mendes Pinto («cidade [...] a quem os seus naturais chamam Pequim», conforme escrevia na Peregrinação) e de Tomé Pinto.
Quando estive expatriado no Brasil, no início da década de 1970, ouvia clandestinamente as emissões em Língua Portuguesa da Rádio Pequim, com as vozes de Viriato da Cruz e Gentil Viana, mas nunca ouvi uma putativa Rádio Beijing.
Em 1978 o governo chinês decidiu proceder a alterações na fórmula de transcrição alfabética da língua chinesa e de romanização do Mandarim moderno, regra que recebeu o nome de Hànyu Pinyin e entrou em vigor a 1 de Janeiro de 1979.
Veio, deste jeito, substituir a anterior forma de “ocidentalizar” a escrita chinesa, de transcrever os acentos de pronúncia, símbolos de palatização e outras chinesices.
Esta reforma alterou a ortografia, de tal modo que o presidente Mao Tse Tung (ou Mao Tse-Tung) passou a ser Mao Zedong, o Teng Hsiao Ping cedeu a vez ao Deng Xiaoping e até o generalíssimo Chiang Kai Shek – o da Formosa – deu lugar a um estranhíssimo Jiang Jièshí. Tudo um mimo.
Porém não alterou de maneira alguma a sua correcta pronúncia, pois mesmo a palavra «Beijing» é sempre lida «Pequim», segundo a melhor opinião de reputados linguistas!
Se a norma em questão é unicamente chinesa e diz respeito à China e se pronuncia sempre «Pequim», independentemente da grafia escolhida, não restará nenhuma razão substancial para se garatujar «Beijing» em português legítimo, uma opção certamente muito discutível.
A não ser por grosseiro pedantismo pseudo-intelectual de trazer por casa, a armar aos cágados. Não havia necessidade e era escusado!
Ainda mais: nos órgãos de comunicação social de línguas românicas, como o francês e o castelhano, não encontrou eco nem guarida a tal imposição de ortografia fonética. E assim temos Pékin (França), Pechino (Itália), Pekín (Espanha) e até Peking (Alemanha).
Em França, em Espanha e, por maioria, em Portugal, ninguém aceitou este modismo modernista e esquisito, como é de facto a palavra Beijing, mas que colhe fundo no mundo anglo-saxónico.
O mesmo mundo anglo-saxónico que nos manda escrevinhar London e nós continuámos a chamar Londres, tal como mandámos para a sarjeta New York em defesa de Nova Iorque.
Para mim, e até pelos justos motivos apresentados, será sempre Pequim, conforme o Português de Lei e por nos ser mais familiar e palatável. Haja mais respeito pela língua de Camões e de Camilo.
Como dizia o doutíssimo José Pedro Machado, «Pequim tem vida e tradição entre nós. [...] Quem pode negar que é essa a forma (a única forma)» de «designar a enorme cidade do Extremo Oriente», herdada do longínquo século XVI.
Num tempo em que éramos uma grande Nação, digna e merecedora. Mas agora anda por aí uma alcateia mais papista do que qualquer pontífice a mamar, num lume de luxúria, no úbere das vacas ramalhudas e cantar loas às regras importadas e desnecessárias.
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