Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
JOGOS OLÍMPICOS DE PEQUIM OU DE BEIJING?

Frontispício da primeira edição da “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto.   Parece que os Jogos Olímpicos de Pequim estão a ser disputados, afinal, em Beijing, para suprema confusão das mentes ocidentais.

 

    Alguns órgãos de comunicação social, em especial do outro lado do Atlântico, tanto no Brasil como nos Estados Unidos dão preferência à última forma, que também encontra adeptos em Portugal.

 

    Na realidade, não se trata duma alteração de nome, como tivemos no passado, com a transmutação de Pérsia para Irão, Sião e Tailândia, Leninegrado e São Petersburgo, e essa ainda mais berrante ao rebaptizar-se a Birmânia – que já foi Burma – em Myanmar.

 

    Pequim tem raízes fundíssimas na língua e literatura portuguesa, nas páginas dos textos clássicos da centúria de quinhentos, na medida em que surge assim grafada e escrita nas obras de Fernão Mendes Pinto («cidade [...] a quem os seus naturais chamam Pequim», conforme escrevia na Peregrinação) e de Tomé Pinto.

 

    Quando estive expatriado no Brasil, no início da década de 1970, ouvia clandestinamente as emissões em Língua Portuguesa da Rádio Pequim, com as vozes de Viriato da Cruz e Gentil Viana, mas nunca ouvi uma putativa Rádio Beijing.

 

    Em 1978 o governo chinês decidiu proceder a alterações na fórmula de transcrição alfabética da língua chinesa e de romanização do Mandarim moderno, regra que recebeu o nome de Hànyu Pinyin e entrou em vigor a 1 de Janeiro de 1979.

 

    Veio, deste jeito, substituir a anterior forma de “ocidentalizar” a escrita chinesa, de transcrever os acentos de pronúncia, símbolos de palatização e outras chinesices.

 

    Esta reforma alterou a ortografia, de tal modo que o presidente Mao Tse Tung (ou Mao Tse-Tung) passou a ser Mao Zedong, o Teng Hsiao Ping cedeu a vez ao Deng Xiaoping e até o generalíssimo Chiang Kai Shek – o da Formosa – deu lugar a um estranhíssimo Jiang Jièshí. Tudo um mimo.

         

    Porém não alterou de maneira alguma a sua correcta pronúncia, pois mesmo a palavra «Beijing» é sempre lida «Pequim», segundo a melhor opinião de reputados linguistas!

         

    Se a norma em questão é unicamente chinesa e diz respeito à China e se pronuncia sempre «Pequim», independentemente da grafia escolhida, não restará nenhuma razão substancial para se garatujar «Beijing» em português legítimo, uma opção certamente muito discutível.

             

    A não ser por grosseiro pedantismo pseudo-intelectual de trazer por casa, a armar aos cágados. Não havia necessidade e era escusado!

 

    Ainda mais: nos órgãos de comunicação social de línguas românicas, como o francês e o castelhano, não encontrou eco nem guarida a tal imposição de ortografia fonética. E assim temos Pékin (França), Pechino (Itália), Pekín (Espanha) e até Peking (Alemanha).

 

    Em França, em Espanha e, por maioria, em Portugal, ninguém aceitou este modismo modernista e esquisito, como é de facto a palavra Beijing, mas que colhe fundo no mundo anglo-saxónico.

 

    O mesmo mundo anglo-saxónico que nos manda escrevinhar London e nós continuámos a chamar Londres, tal como mandámos para a sarjeta New York em defesa de Nova Iorque.

              

    Para mim, e até pelos justos motivos apresentados, será sempre Pequim, conforme o Português de Lei e por nos ser mais familiar e palatável. Haja mais respeito pela língua de Camões e de Camilo.

             

    Como dizia o doutíssimo José Pedro Machado, «Pequim tem vida e tradição entre nós. [...] Quem pode negar que é essa a forma (a única forma)» de «designar a enorme cidade do Extremo Oriente», herdada do longínquo século XVI.

 

    Num tempo em que éramos uma grande Nação, digna e merecedora. Mas agora anda por aí uma alcateia mais papista do que qualquer pontífice a mamar, num lume de luxúria, no úbere das vacas ramalhudas e cantar loas às regras importadas e desnecessárias.

 



publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:00
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23 comentários:
De antónio paiva a 15 de Agosto de 2008 às 12:08
....

uma sapiente elucidação.

abraço.


De José Narciso a 15 de Agosto de 2008 às 17:33
Um bom texto que devia ser lido e atendido por quem de direito. Não há direito em aceitarmos as regras da CNN, dos americanos, dos ingleses, etc. Como bem prova, em português é PEQUIM e o resto é conversa de frustados...


De zé lérias a 15 de Agosto de 2008 às 20:03
Ainda bem que me descansou com a sua informação!
Não conhecia a origem da mudança do nome, embora tivesse achado de mau gosto terem, por cá(*), mudado a grafia do nome da capital da China (tanto mais que para os chineses - se bem entendi - se mantém inalterável a fonética).

(*) - Chácara onde certos intelectuais de trazer por casa pastoreiam as tais " vacas ramalhudas"...

Um forte abraço.


De Antunes Ferreira a 16 de Agosto de 2008 às 18:05
Agradeço visita ao Travessa e comentário.
Concordo com a afirmação sobre a roubalheira que os bancos fazem a todos nós, seus clientes. E as seguradoras, idem, idem, aspas, aspas.
Mas - um assalto é sempre um assalto. O uso de armas é sempre um uso da força. Não podemos pactuar com procedimentos deste quilate. Sob pena de nos demitirmos de ser... Homens.
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Agradeço visita ao Travessa e comentário. <BR>Concordo com a afirmação sobre a roubalheira que os bancos fazem a todos nós, seus clientes. E as seguradoras, idem, idem, aspas, aspas. <BR>Mas - um assalto é sempre um assalto. O uso de armas é sempre um uso da força. Não podemos pactuar com procedimentos deste quilate. Sob pena de nos demitirmos de ser... Homens. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Abs</A>


De Antunes Ferreira a 18 de Agosto de 2008 às 05:53
Agradeço visita ao Travessa e comentário. Concordo com a afirmação sobre a roubalheira que os bancos fazem a todos nós, seus clientes. E as seguradoras, idem, idem, aspas, aspas. Mas - um assalto é sempre um assalto. O uso de armas é sempre um uso da força. Não podemos pactuar com procedimentos deste quilate. Sob pena de nos demitirmos de ser... Homens.


De João Videira Santos a 16 de Agosto de 2008 às 18:31
Um texto interessante, mesmo educativo. Parabéns!


De cindamoledo a 16 de Agosto de 2008 às 19:18
Bem dita a hora que aqui vim...aprendi. Obrigada. Bjs cinda


De Margarida a 16 de Agosto de 2008 às 20:56

Curiosamente ,dei comigo a pensar cá para os meus botões, que eram estrangeirismo perfeitamente dispensáveis, das várias vezes que ouvi jornalistas Portugueses a referirem-se aos jogos de "Beijing".....
Achei estranho,esquisito,soou-me mal.e não entendi tal procedimento.
Ora aqui está a informação que me faltava
Meus Srs !em Bom Português é Pequim e pronto,para que complicar o que não tem complicação.
Obrigada Jofre.....!
Margarida


De jo a 16 de Agosto de 2008 às 20:57
PARA mim tb será sempre Pequim, que por sinal, não conheço, mas tb o Oriente não me atrai. Gostei foi de ter recebido esta bela lição das origens da palavra pequim. obrigada.


De POESIA-NO-POPULAR a 17 de Agosto de 2008 às 00:06
Amigo Jofre Alves
As coisas que o amigo sabe!
Sobre a nossa comunicação social, não sei bem se temos jornalistas se actores, há pouco acabei de ouvir uma senhora destacada para a Ossétia, que dizia a certa altura "o general Georgiano diz estar em contacto com o general Soviético", aí eu pensei:-deve ser algum general que estava congelado e descongelaram-no par prestar este relevante serviço, á Rússia.
Por estes pequenos pormenores calcula-se como deve ser o resto.
Abraço amigo


De emanuela a 17 de Agosto de 2008 às 03:43
Olá Jofre, fantástica a tua explicação. Para falar a verdade, também eu, além de não saber a origem da tal palavra"Beijing", não a aprovei nem um pouco. Obrigada pelo esclarecimento!
Ah, e fiquei curiosa acerca de outro assunto: o de que estiveste expatriado no Brasil. Espero que tenhas lembranças boas da minha( nossa) terra.
Beijos, bom domingo.


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