Comecemos pelo fim: ao cair da tarde de 25 de Outubro de 1495 El-Rei Dom João II entregava a alma ao criador e o corpo à terra fria. Envenenado, sem margem para dúvidas, vítima duma morte horrível, no meio dum penar atroz e na mais completa solidão, sozinho e abandonado como um cão tinhoso, lá na casa do Diabo, desamparado no leito de moribundo! Esta não é uma história de príncipes encantados, mas de gente de génio danado.
A morte por envenenamento deste soberano, figura maior da nossa História, esteve sempre envolta na neblina dos mais incisivos debates, dando origem a rumores e teses acaloradas.
A comunidade científica e os historiadores dividiram-se profundamente entre os crentes e os cépticos de semelhante teoria, a falarem pelos cotovelos entre os gentios da nossa terra.
Dum lado, defensores do debatido envenenamento, vemos figuras distintas como D. Agostinho Manoel de Vasconcelos (1584+1641), Camilo Castelo Branco (1825+1890), dr. Manuel Bento de Sousa (1835+1899), Henrique de Barros Gomes (1843+1898), Oliveira Martins (1845+1894), Anselmo Braamcamp Freire (1849+1921), Francisco da Costa Cabral (1880+1946), prof. dr. Carlos Lopes, dr. Sebastião da Silva Freitas, etc.
No pólo oposto, a pugnar por causas naturais, a fila leva nomes sonantes como D. Carolina Michaelis de Vasconcelos (1841+1925), Conde de Sabugosa (1854+1923), dr. D. António de Lencastre (1857+1941), dr. Ricardo Jorge (1858+1939), etc.
As fortíssimas suspeitas de envenenamento de Dom João II são tão velhas e relhas como a salve-rainha. Ainda em vida do monarca corriam, em ruge-ruge, boatos e rumores acerca de diversas tentativas, tal como os cronistas nos relatam.
E foi a partir dos testemunhos directos dos historiógrafos coevos que a hipótese de regicídio por envenenamento tem pairado, pertinente e persistente.
Analisando friamente a realidade dos factos e os textos das crónicas, é indesmentível que o rei foi alvo dum longo e silencioso processo, envenenado através da sucessiva administração de pequenas doses de arsénico, de molde a resvalar numa fatídica doença e consequente causa natural de morte, enfermidade a fazer caminho atrás da peçonha.
Porém, de certeza, foram administradas pequenas quantidades de arsénico durante cinco anos, hoje um poucochinho, no ano seguinte mais um chichinho, veneno que lhe quebrantou o corpo e arrancou paulatinamente a vida.
O primeiro atentado, por via de veneno, contra o soberano sobreveio logo imediatamente ao casamento de seu filho, em Novembro de 1490, na bica da Herdade da Fonte Coberta, às portas de Évora:
«E sahio della pera a Erdade que dizem Fonte-Cuberta [...]. El Rey seendo fora sentiose tam mal e d’acidentes tam mortaes, que maginando ser de pestenença, ou peçonha [...] ficou hũa geeral presunçam que nesta Fonte-Cuberta no beber lhe fora dada»[1].
A segunda dose letal de peçonha foi imediata à morte de D. Afonso, seu filho e herdeiro, factos – morte do príncipe e envenenamento – ocorridos em 1491, conforme diz Garcia de Resende, boa testemunha: «por peçonha que lhe deram, como muitos suspeitaram, nunca mais foi bem são».
No mesmo sentido lemos o cronista Rui de Pina: «... despois da morte do Príncipe, El Rey tornou logo a adoecer de mal de que ao diante morreo, e ouve sospeita que fora de peçonha»[2].
Enxergo alguns incrédulos de coisas e loisas, a abanar a croa do toutiço, a esbugalhar os olhos em trejeitos de S. Tomé, que nanja, precisam de prova provada mais decisiva. Para a aceitabilidade da teoria do magnicídio, as provas são essenciais e irrefutáveis.
Conjuntamente com o soberano, e na mesma ocasião, faleceram mais três membros do seu séquito pessoal, vitimados por vómitos, edemas, ânsias e hidropisia, a saber: D. Fernão de Lima, copeiro-mor da Casa Real; Estêvão de Sequeira, copeiro menor; Afonso Fidalgo, copeiro.
Estes seus fiéis servidores morreram, assassinados, até pela especificidade das suas funções, na medida em que lhes competia, em graus distintos, a vigilância sobre a confecção, distribuição e prova da manja que ia à mesa régia, comida que igualmente comiam logo após o repasto real.
Não é, pois, de estranhar que todos morressem a trouxe-mouxe com o monarca, porquanto manjavam a mesma côdea e chicho da mesa real. Estavam profundamente envolvidos em todo o processo nutricional e alimentar do monarca, uma trabalheira de mil dianhos.
Vamos, de novo, às fontes:
«... ficou hũa geral presumpçam que nesta fonte cuberta lhe fora dada peçonha em agoa que bebeo, a qual presunção e sospeita se confirmou em muytos com as mortes de Fernam de Lima seu Copeiro moor, e de Estevam de Sequeira Copeiro, e de Affonso Fidalgo homem de copa, que inchados e resolutos como El Rey antes delle poucos dias todos os tres falleceram»[3].
Resta, para maior rigor, ouvir a avalizada convicção dum perito, o dr. Manuel Bento de Sousa:
«A descrição dos últimos sofrimentos, embora lacónica, é suficiente para se ver que o Rei sucumbiu a uma anasarca com perturbações cardíacas. A acção do arsénico, e, análogos, em doses lentas ou repetidas, causa a degeneração gorda do coração e outras vísceras, sobrevindo-lhe a anasarca»[4].
Reparo agora, que tomado de febril entusiasmo, a gastar latinório num vício temperamental, rabisquei um texto enorme com dimensão dum vale de lágrimas, de tal maneira que um dos meus dois leitores adormeceu em torpor e tombou cadeira abaixo, em estrondo.
O resto, a segunda prova acerca do envenenamento e o nome do sacripanta mandante, fero guerreiro da cicuta, quem ficou a meter a mão na consciência, na pele de temente a Deus e cristão arrependido nas intrigas palacianas, ficará para outra oportunidade, desde que não seja no dia de “são nunca”.
[1] Rui de Pina, Chronica del Rei Dom João II, capítulo XLVIII.
[2] Rui de Pina, Chronica del Rei Dom João II, capítulo XLVIII.
[3] Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e Miscelânea, 1973, p. 188.
[4] Cf. Anselmo Braamcamp Freire, Crítica e História: Estudos, vol. I, 1910, p. 223.
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