Terça-feira, 4 de Novembro de 2008
DOM JOÃO II MORREU ENVENENADO?

    Comecemos pelo fim: ao cair da tarde de 25 de Outubro de 1495 El-Rei Dom João II entregava a alma ao criador e o corpo à terra fria. Envenenado, sem margem para dúvidas, vítima duma morte horrível, no meio dum penar atroz e na mais completa solidão, sozinho e abandonado como um cão tinhoso, lá na casa do Diabo, desamparado no leito de moribundo! Esta não é uma história de príncipes encantados, mas de gente de génio danado.

                                                                                                       

    A morte por envenenamento deste soberano, figura maior da nossa História, esteve sempre envolta na neblina dos mais incisivos debates, dando origem a rumores e teses acaloradas.

                                                                          

    A comunidade científica e os historiadores dividiram-se profundamente entre os crentes e os cépticos de semelhante teoria, a falarem pelos cotovelos entre os gentios da nossa terra.

                               

    Dum lado, defensores do debatido envenenamento, vemos figuras distintas como D. Agostinho Manoel de Vasconcelos (1584+1641), Camilo Castelo Branco (1825+1890), dr. Manuel Bento de Sousa (1835+1899), Henrique de Barros Gomes (1843+1898), Oliveira Martins (1845+1894), Anselmo Braamcamp Freire (1849+1921), Francisco da Costa Cabral (1880+1946), prof. dr. Carlos Lopes, dr. Sebastião da Silva Freitas, etc.

                                                                  

    No pólo oposto, a pugnar por causas naturais, a fila leva nomes sonantes como D. Carolina Michaelis de Vasconcelos (1841+1925), Conde de Sabugosa (1854+1923), dr. D. António de Lencastre (1857+1941), dr. Ricardo Jorge (1858+1939), etc.

                                                                 

    As fortíssimas suspeitas de envenenamento de Dom João II são tão velhas e relhas como a salve-rainha. Ainda em vida do monarca corriam, em ruge-ruge, boatos e rumores acerca de diversas tentativas, tal como os cronistas nos relatam.

                                  

    E foi a partir dos testemunhos directos dos historiógrafos coevos que a hipótese de regicídio por envenenamento tem pairado, pertinente e persistente.

                                       

Dom João II no "Livro dos Copos"    Analisando friamente a realidade dos factos e os textos das crónicas, é indesmentível que o rei foi alvo dum longo e silencioso processo, envenenado através da sucessiva administração de pequenas doses de arsénico, de molde a resvalar numa fatídica doença e consequente causa natural de morte, enfermidade a fazer caminho atrás da peçonha.

                                                                                          

    Porém, de certeza, foram administradas pequenas quantidades de arsénico durante cinco anos, hoje um poucochinho, no ano seguinte mais um chichinho, veneno que lhe quebrantou o corpo e arrancou paulatinamente a vida.

                                                             

    O primeiro atentado, por via de veneno, contra o soberano sobreveio logo imediatamente ao casamento de seu filho, em Novembro de 1490, na bica da Herdade da Fonte Coberta, às portas de Évora:

«E sahio della pera a Erdade que dizem Fonte-Cuberta [...]. El Rey seendo fora sentiose tam mal e d’acidentes tam mortaes, que maginando ser de pestenença, ou peçonha [...] ficou hũa geeral presunçam que nesta Fonte-Cuberta no beber lhe fora dada»[1].

                                                                              

    A segunda dose letal de peçonha foi imediata à morte de D. Afonso, seu filho e herdeiro, factos – morte do príncipe e envenenamento – ocorridos em 1491, conforme diz Garcia de Resende, boa testemunha: «por peçonha que lhe deram, como muitos suspeitaram, nunca mais foi bem são».

                                                                 

    No mesmo sentido lemos o cronista Rui de Pina: «... despois da morte do Príncipe, El Rey tornou logo a adoecer de mal de que ao diante morreo, e ouve sospeita que fora de peçonha»[2].

                                   

    Enxergo alguns incrédulos de coisas e loisas, a abanar a croa do toutiço, a esbugalhar os olhos em trejeitos de S. Tomé, que nanja, precisam de prova provada mais decisiva. Para a aceitabilidade da teoria do magnicídio, as provas são essenciais e irrefutáveis.

                                                  

    Conjuntamente com o soberano, e na mesma ocasião, faleceram mais três membros do seu séquito pessoal, vitimados por vómitos, edemas, ânsias e hidropisia, a saber: D. Fernão de Lima, copeiro-mor da Casa Real; Estêvão de Sequeira, copeiro menor; Afonso Fidalgo, copeiro.

                                                                            

    Estes seus fiéis servidores morreram, assassinados, até pela especificidade das suas funções, na medida em que lhes competia, em graus distintos, a vigilância sobre a confecção, distribuição e prova da manja que ia à mesa régia, comida que igualmente comiam logo após o repasto real.

                                              

    Não é, pois, de estranhar que todos morressem a trouxe-mouxe com o monarca, porquanto manjavam a mesma côdea e chicho da mesa real. Estavam profundamente envolvidos em todo o processo nutricional e alimentar do monarca, uma trabalheira de mil dianhos.

                                      

    Vamos, de novo, às fontes:

«... ficou hũa geral presumpçam que nesta fonte cuberta lhe fora dada peçonha em agoa que bebeo, a qual presunção e sospeita se confirmou em muytos com as mortes de Fernam de Lima seu Copeiro moor, e de Estevam de Sequeira Copeiro, e de Affonso Fidalgo homem de copa, que inchados e resolutos como El Rey antes delle poucos dias todos os tres falleceram»[3].

                                                                  

    Resta, para maior rigor, ouvir a avalizada convicção dum perito, o dr. Manuel Bento de Sousa:

«A descrição dos últimos sofrimentos, embora lacónica, é suficiente para se ver que o Rei sucumbiu a uma anasarca com perturbações cardíacas. A acção do arsénico, e, análogos, em doses lentas ou repetidas, causa a degeneração gorda do coração e outras vísceras, sobrevindo-lhe a anasarca»[4].

                          

    Reparo agora, que tomado de febril entusiasmo, a gastar latinório num vício temperamental, rabisquei um texto enorme com dimensão dum vale de lágrimas, de tal maneira que um dos meus dois leitores adormeceu em torpor e tombou cadeira abaixo, em estrondo.

                                                        

    O resto, a segunda prova acerca do envenenamento e o nome do sacripanta mandante, fero guerreiro da cicuta, quem ficou a meter a mão na consciência, na pele de temente a Deus e cristão arrependido nas intrigas palacianas, ficará para outra oportunidade, desde que não seja no dia de “são nunca”.



[1] Rui de Pina, Chronica del Rei Dom João II, capítulo XLVIII.

[2] Rui de Pina, Chronica del Rei Dom João II, capítulo XLVIII.

[3] Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e Miscelânea, 1973, p. 188.

[4] Cf. Anselmo Braamcamp Freire, Crítica e História: Estudos, vol. I, 1910, p. 223.


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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 18:24
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22 comentários:
De Fisga a 5 de Novembro de 2008 às 10:40
Olá Amigo Jofre: Que bela discrição, de uma morte que teve tanto de real como de atroz. Eu tomei a liberdade de adicionar aos meus favoritos, porque me parece que um documento desta importância merece ser mais divulgado. Um grande abraço e boa semana. Eduardo.


De Eduardo Daniel Cerqueira a 5 de Novembro de 2008 às 11:12
Mais um excelente artigo, saudações amigo Jofre.


De MPS a 5 de Novembro de 2008 às 16:13
Meu caro Jofre

Felizmente pôde dar por concluído o "interregno". Já tinha saudades suas, aqui mortinhas de todo, depois de saborear tão suculento pedaço de prosa.

D. João II tinha um projecto para o País; os outros - aqueles que contam em poder e riqueza - tinham ambições pessoais. Ganhou a soberba. Perdeu-se o País, com a rainha por coveira. Ao menos, a essa, o arrependimento deu-lhe para as boas obras durante a vida.

Um abraço


De Oliver Pickwick a 6 de Novembro de 2008 às 19:34
Ei, Jofre! Vejo que retornou às escavações. Isto é bom, pois a blogosfera carece de "arqueólogos" do seu calibre.
Rapaz, que história "tramosa", hein? Se substituíssemos os nomes destes personagens por outros, tais como, Don Tomasino, Don Corleone, Don Clemenza, Don Ciccio, teríamos uma história envolvente da camorra siciliana.
Quem sabe, não era apenas negócios? :)
Um abraço!


De Andesman a 7 de Novembro de 2008 às 21:57
Meu caro Jofre mais um excelente documento da nossa História.

Quanto ao "camarada" Coelho, é um bocado fundamentalista, mas boa pessoa, solidário e amigo. É meu amigo há mais de 30 anos.

1 abraço para si


De gata verde a 7 de Novembro de 2008 às 23:27
Olá!
Não estava à espera de tantos elogios...muito obrigada por gostares do meu cantinho de fotos!
;)

O teu blog também é bastante interessante!!
Beijocas


De POESIA-NO-POPULAR a 8 de Novembro de 2008 às 00:22
Amigo Jofre Alves
Por que será que neste país, quando aparece alguem, com boas ideias, é silênciado, por formas menos claras, e que ficam sempre por esclarecer.
Obrigado por este texto, sobre o Principe Perfeito do qual se podem tirar algumas elacções ocorridas após este episódio, da nossa história.
Abraço


De Jose Cunha a 8 de Novembro de 2008 às 00:23
Nem sabia que o rei tinha sido envenenado! Quem sera que o mandou matar ou ningume saberá quem foi? Fico a espera da segunda parte e por isso espero que não seja no dia de são nunca à tarde.


De mfc a 8 de Novembro de 2008 às 16:39
Há meandros da História absolutamente fascinantes e ... intrigantes.


De Maria a 8 de Novembro de 2008 às 20:46
Amigo Jofre fiquei feliz de ler o seu comentário! Agradeço a estima! Gostei imenso do seu tema sobre HISTÓRIA! Fiquei sabendo factos que desconhecia!


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